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Rita da Nova

As minhas pessoas // Sofia

A Sofia não é uma miúda como as outras. Para terem ideia, acho que nunca falámos muito sobre maquilhagem, roupa ou até sobre homens - e se o fizemos foi sempre com o tom despreocupado que nos caracteriza e que eu gosto tanto. Tenho na Sofia um sítio onde nada é demasiado grave, preocupante ou triste. Ela provavelmente não faz ideia disto, mas vejo-a um bocadinho como o Mar Morto: um sítio onde tudo é leve, nada afunda definitivamente.

 

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As minhas pessoas // Pincha

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O Pincha não gosta de surpresas, por isso tive que lhe pedir autorização antes de escrever este post. Mandei-lhe uma mensagem a perguntar, mas aposto que, se o tivesse feito presencialmente, o teria visto a torcer o nariz e a soltar um “Opá!” que lhe é tão característico.

 

Conheci-o em 2008, quando entrou para a minha turma de 12º ano. Ele não gostou de mim: achou-me irritante e convencida, porque era a melhor aluna da turma e nunca tinha tido concorrência à altura. Só um ódio comum consegue aproximar duas pessoas e, no nosso caso, esse ódio era o exercício físico (eu já fiz as pazes, ele ainda não). Foi durante um corta-mato - que ambos percorremos contrariados e a andar - que percebemos que tínhamos também interesses e objectivos comuns. Queríamos ir para a Nova tirar Ciências da Comunicação. Eu tinha a certeza que queria ser jornalista, ele ainda não sabia. Hoje em dia ele trabalha no Público e eu já me deixei dessas lides.

 

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Nunca fomos daqueles amigos muito agarradinhos e melosos, embora eu lhe chame muitas vezes “Queijinho Fresco” e ele me trate por “Torta de Azeitão”. Passam-se meses que não estamos juntos, mas sempre que nos reencontramos damos um longo abraço (não sem antes gritarmos “venham daí esses ossos!”). 

 

Fizemos um percurso comum durante muito tempo: o último ano de secundário, três anos de faculdade, um inter-rail e um estágio no Público. Confiei-lhe a minha vida quando o desafiei para vir comigo percorrer a Europa de Leste de mochila às costas, durante um mês. Eu já tinha percebido antes que podia contar com ele para sempre (afinal, só ele consegue gostar mais do Bruno Aleixo do que eu), mas essa viagem trouxe-me a confirmação. 

 

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Raramente lhe digo estas coisas, mas tenho um orgulho imenso na pessoa que ele se tem tornado ao longo dos anos; no homem calmo e ponderado que é; no talento que tem. Aproveito para fazê-lo agora que chegámos os dois aos 26 anos e estamos, oficialmente, mais perto dos 30 do que dos 20. Quero que entre neste novo ano da vida dele com a certeza de que, se há pessoa que quero manter sempre na minha vida, é ele - seja a vê-lo quando-o-rei-faz-anos ou durante uma viagem de um mês.

 

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Este é o quarto post sobre as minhas pessoas: aquelas que fizeram e fazem de mim quem sou. As que ensinam - às vezes sem saberem - como andar neste sítio caótico que é o mundo. Espero que gostem tanto de as conhecer como eu gosto de as ter na minha vida.

As minhas pessoas // Pai

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Passam-se meses em que eu não estou com o meu Pai, apesar de agora até morarmos no mesmo bairro. Sempre foi um bocadinho assim entre nós: podemos nem falar, mas estamos lá um para o outro. A nossa relação é de confiança velada, algo que construímos sem esforço e sempre nos foi natural.

 

Só conheci o meu Pai quando fiz 9 anos - ele entrou pela porta de casa da minha Avó e sentou-se no sofá. Sem desviar os olhos da televisão (estava a dar o Doraemon, era sagrado), soube imediatamente quem era e perdoei tudo o que, na altura, achei que havia para perdoar. Ele levou-me a jantar fora e eu não larguei a mão da minha Avó durante um segundo, para lhe mostrar que precisava de me habituar à presença dele. Lembro-me como se estivesse a acontecer agora: comi frango assado e ele comeu salmão grelhado com molho de manteiga, na sala de trás da Churrasqueira do Marquês, na Calçada da Ajuda. Nunca tinha comido salmão - nem quis provar do dele -, mas hoje em dia é um dos muitos gostos que partilhamos.

 

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Vim a aperceber-me mais tarde que não havia nada para desculpar, nada para esquecer, nenhuns ressentimentos ou coisa que o valha. Tive uma oportunidade que pouca gente teve: a de construir uma relação de zero com o meu pai, mesmo quando toda a gente achava que seria difícil.

 

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Sabem quando as crianças aprendem a andar de bicicleta e têm aquelas rodinhas de apoio? Passado um tempo já só têm uma das rodinhas e, finalmente, ficam sem nenhuma e conseguem andar em perfeito equilíbrio. É assim que vejo o meu Pai. Como as rodinhas da minha bicicleta, um apoio que, apesar de não ser tão explícito, continua a existir e me permite continuar no caminho que percorro.

 

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Este é o terceiro post sobre as minhas pessoas: aquelas que fizeram e fazem de mim quem sou. As que ensinam - às vezes sem saberem - como andar neste sítio caótico que é o mundo. Espero que gostem tanto de as conhecer como eu gosto de as ter na minha vida.

As minhas pessoas // Guilherme

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“Tens noção que vais perder?”. Foi a primeira coisa que ele me disse quando me viu, cheio de bazófia e triunfo no olhar. A Jonas tinha-me convidado para jogar ao sério aqui no SAPO porque estavam a gravar uns vídeos de promoção aos festivais de verão com pessoas conhecidas (e, vá-se lá saber porquê, comigo também).

 

Não sabia quem ele era, mas tinham-me dito que era comediante. Para mim, com aquela frase inicial, pareceu-me apenas parvo. Mostrei-lhe que não gosto de perder e estivemos 1h10 a olhar um para o outro. Até àquele dia, eu não acreditava que o silêncio pudesse dizer grande coisa. Que, sem palavras, conseguíssemos conhecer-nos tão bem, fazer piadas e até marcar jantares. Nós fizemos isso tudo.

 

O nosso espaço tornou-se, logo ali, demasiado nosso para que alguém conseguisse demover-nos de estar apenas um com o outro. Ele tornou-se aquele sítio da casa em que deixo os sapatos assim que chego. O sítio em que não existe nada mais do que paz. Em que posso não falar, mas nunca deixa de faltar tema de conversa.

 

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É que o amor é uma coisa curiosa. Apanha-nos sem estarmos à espera. Fica a olhar para nós durante largos minutos - não para nos convencer, mas para nos dar tempo de nos apercebermos que já não há volta a dar. Chega devagar, mas mostra-nos que há mais nas pequenas coisas do que aquilo que conseguimos ver. 

 

Só que o amor também é muito como aprender a andar. É-nos natural, mas precisamos que nos expliquem como. Precisamos de confiar na pessoa que nos estende as mãos e diz "vamos". Precisamos de ter coragem para pôr um pé à frente do outro, mesmo que não saibamos muito bem o que raio estamos a fazer. Mais do que ter ajuda para chegar a algum lado, o amor é ter a certeza que podemos andar sempre em frente, para cima e para baixo, para os lados, para trás até.

 

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Faz hoje dois anos que joguei com o Guilherme ao sério pela primeira vez e só espero que haja sempre um empate técnico entre nós. De preferência, a andar sempre em frente e de mindinho dado.

 

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Este é o segundo post sobre as minhas pessoas: aquelas que fizeram e fazem de mim quem sou. As que ensinam - às vezes sem saberem - como andar neste sítio caótico que é o mundo. Espero que gostem tanto de as conhecer como eu gosto de as ter na minha vida.