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Rita da Nova

Qui | 13.11.25

Small Boat, Vincent Delecroix

Comecei a ver este livro um pouco por toda a parte, sobretudo depois de ser finalista do International Booker Prize deste ano, e de todos os nomeados foi o que captou mais a minha atenção. Embora seja um livro bastante curto — tem pouco mais de 100 páginas —, posso dizer que me permiti a demorar-me nele, até porque a história assim o exige.

 

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Baseado num acontecimento trágico de novembro de 2021, Vincent Delecroix traz-nos uma narrativa intensa e revoltante, dado que põe o foco na mulher que foi considerada culpada. Comecemos com o que aconteceu realmente: um bote com migrantes naufragou no Canal da Mancha, resultando na morte de 27 pessoas. Na altura, havia dúvidas acerca das autoridades responsáveis pelo possível salvamento, uma vez que as autoridades francesas afirmavam que o barco estava em águas britânicas, e vice-versa. Em Small Boat, o autor parte desta desgraça e decide dar voz à mulher responsável por atender estas chamadas no lado francês, mulher essa que foi depois bastante criticada pelas coisas que disse e pela atitude que teve.

 

Num impressionante exercício de empatia e tentativa de compreensão, Vincent Delecroix vai alternando a narrativa entre a primeira pessoa desta mulher e uma terceira pessoa que distancia o lado emocional e nos dá apenas os factos. Acho que nunca me tinha sentido tão irritada com uma personagem como me senti com esta mulher, e não porque discordo a 100% dela, mas porque consigo perfeitamente compreender a sua posição embora não concorde. Foi, sem dúvida, um dos livros que mais me fez reconsiderar os meus valores e, mais do que isso, a maneira como julgo as opiniões e as atitudes das outras pessoas.

 

There's only me who sees and hears and who responds. And to the blind man, spitting on me as he finishes his copious lunch with colleagues and goes back to his little office, I’ll say: Hey, jerk, see that guy sleeping in a cardboard box at the foot of your building? He's rowing across the tarmac, he's sinking too. But he's not dozens of kilometres out at sea, at dead of night, he is quite easy to geolocate, he's just in front of your feet. So are you going to send him help or is that my job again?

 

No final da leitura, fiquei com mais perguntas do que respostas, e acho que isso é ótimo. Afinal, é fácil condenar alguém por um acontecimento em particular, mas a culpa não será da crise migratória que vivemos? E de quem é a culpa dessa crise? Será que todos teríamos ajudado aqueles migrantes naquele barco? Ou teríamos ido ao encontro daquilo que é o nosso trabalho, como forma de nos defendermos das consequências? E o que diz que nós que escolhamos ajudar certas pessoas e não outras?

 

Recomendo muitíssimo esta leitura, porque acho que nos coloca numa posição dificílima — a de nos confrontarmos com a validade das nossas próprias crenças. Infelizmente ainda não está traduzido para português, mas acredito que aconteça brevemente, dado o sucesso deste livro. Também já o leram? E que livros semelhantes me recomendariam?