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Rita da Nova

Palavras Cruzadas // Um sabor de infância

Estou ao colo da minha Avó. Não está frio, mas os raios de sol não estão suficientemente quentes para me queimar a pele. Acho que corre uma aragem, mas disso não me recordo. Talvez as folhas das árvores dancem umas com as outras. Talvez se olhem apenas, mudas, quietas, pacientes.

 

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Devo ter acabado de dormir a sesta porque a luz do dia ainda me agride ligeiramente e ecoa na minha cabeça. Estamos na varanda e olho com curiosidade o vermelho dos carros de bombeiros estacionados abaixo de nós. Estico os dedos, o braço, o corpo, mas não lhes toco. 

 

É então que oiço um barulho que nunca esquecerei. A minha mãe traz nas mãos um copo de iogurte, que mexe energicamente com uma colher prateada. Leva-me uma colherada à boca e recuso. Pego no talher com a minha própria mão, como pequena independente que sempre tive a mania de ser. Ou de achar ser. Está amargo e a minha mãe põe-lhe mais uma colher de açúcar. Volta a remexer o iogurte com um barulho que me é tão familiar. Sorri e as folhas das árvores, lá fora, sorriem com ela. 

 

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Este é o décimo post da rubrica Palavras Cruzadas, criada em parceria com o P.A. e, quem sabe, convosco também. A ideia é irmo-nos desafiando uns aos outros através da escrita e escrevermos sobre temas que saem um pouco da nossa zona de conforto ou registo. O tema desta quinzena foi ideia minha, agora é ver o desafio que o P.A. tem para a próxima quinzena!