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Rita da Nova

Palavras Cruzadas // Sorriso no trânsito

Quando o P.A. me desafiou para escrever sobre a problemática no trânsito, lembrei-me imediatamente de um micro-conto que escrevi há uns tempos e nunca partilhei com ninguém. 

 

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Ouvia aquela música e não se esforçava sequer para impedir que o fluxo de ondas sonoras e de notas lhe entrasse pelos ouvidos e se espalhasse pelo corpo todo, como um monte de folhas caídas das árvores quando são atingidas pelos ventos do Outono.  Pelo contrário: cantarolava-a. Agitava a cabeça suavemente, para a esquerda e para a direita.

Por norma acordava bem-disposto. Não com um sorriso nos lábios, mas confiante. O estado de espírito ia-se desvanecendo com a passagem dos minutos. 8h30. Às 8h45 já tinha avançado cem metros. Com alguma sorte, tinha engatado a terceira e sentia-se um autêntico Fittipaldi.

A canção – era uma balada? Era jazz? Era rock? – parou. A voz formatada do locutor, igual a muitas outras, fê-lo prestar atenção e estender a mão para aumentar o volume. Não foi o timbre, foram as palavras.

«Pois é, caro ouvinte, ninguém fica indiferente a este êxito. Agora falemos de outras coisas, coisas… alegres. Hoje é o Dia Mundial do Sorriso e nós, aqui na Rádio, queremos lançar-lhe um desafio. Esteja onde estiver, olhe para alguém e sorria! Se estiver no trânsito, melhor. Olhe para o lado e sorria».

Sorriu instantaneamente perante a ideia de um dia feito só para sorrir e admirar esse reflexo tão natural do ser humano. Quis entrar na brincadeira, partilhar a alegria que o trânsito ainda não lhe sugara.

Olhou para o condutor da esquerda: uma mãe num carro cheio. Cheio de crianças, de mochilas de escola, de almoços e livros dentro das mochilas de escola. Passava um batom nos lábios enquanto falava com a adolescente que ocupava o lugar do pendura. Olharam para o lado e sorriram-lhe. Ele sorriu de volta.

Virou automaticamente a cara para a direita, ainda com o sorriso estampado no rosto. Estava empenhado em continuar a missão. A rapariga que olhou para ele estava sozinha no carro. O olhar e o sorriso triste disseram-lhe que era também muito provável que estivesse sozinha na vida.

Ela baixou os olhos. Quando voltou a levantá-los avançou na estrada, porque a fila assim o exigia. Ele avançou com ela. Avançavam os dois lentamente, lado a lado, como numa valsa inconstante e lenta. Olhavam-se enquanto estavam parados. E ela sorria. Sempre o mesmo esgar, o mesmo esboço, o mesmo rascunho de um gesto de felicidade, uma felicidade que não vinha.

Estava estarrecido. Desconhecia os milhares de pássaros que lhe voavam no peito sempre que ela se movia ou olhava para ele. Sabia que dificilmente voltaria a vê-la. Sabia que a matemática, a estatística, a probabilidade e toda essa infinidade de números e equações não estavam do lado dele. Sabia que o sorriso dela tinha sido a coisa mais nostálgica e triste que tinha visto na vida. A coisa mais bonita. O que não sabia é que ela não tinha o rádio ligado.

 

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Este é o 13º post da rubrica Palavras Cruzadas, criada em parceria com o P.A. e, quem sabe, convosco também. Se ainda não leram pelo menos um destes posts, onde é que têm andado? O tema desta quinzena foi ideia dele, por isso para a próxima sou eu a decidir sobre o que vamos falar. Que tal a resposta à pergunta: onde gostavas de ter acordado hoje?

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