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Rita da Nova

Qua | 03.07.19

Palavras Cruzadas // O fim

Quando propus que o último Palavras Cruzadas fosse sobre o fim, não estava a espera que fosse falar de algo mais do que o último post desta rubrica que durou à volta de 40 semanas. Não estava à espera que a vida me trouxesse um fim doloroso sobre o qual falar. Por isso, hoje, vou fazer o que sempre fiz com o Palavras Cruzadas - usar este cantinho para escrever as coisas que estão aqui dentro à espera para serem transformadas em algo que possa passar aos outros.

 

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Deixem-me falar-vos sobre o Zé. O Zé foi o meu primeiro grande amigo e companheiro de escola, do 7º ao 12º ano. Só não foi mais cedo porque nos dois primeiros anos do ensino básico eu fui parar à turma da tarde, por sinal a mais problemática da escola. Mas a partir daí a lógica era sempre a mesma: sentávamo-nos na terceira fila de mesas a contar da esquerda, na segunda carteira a contar do quadro. Éramos bons alunos, mas queríamos deixar bem explícito que não éramos nerds.

 

Eu ficava sempre sentada do lado esquerdo e ele do direito, mas passado uns anos acabámos por trocar porque ele era canhoto e dava-lhe mais jeito. Uma vez fui expulsa da aula de História (sim, eu!) porque ele estava a imitar a professora ao meu ouvido enquanto eu lia em voz alta - e eu não aguentei o riso. Ele tinha um humor muito parecido com o meu - sarcástico e incisivo - e tinha a sorte (ou a mestria?) de nunca ser apanhado a gozar com os professores.

 

Haveria outras coisas a contar. Ele ofereceu-me o meu primeiro baton, possivelmente a antecipar aquilo que seria algo essencial na minha vida anos mais tarde. Convidava-me sempre para almoçar quando a mãe dele fazia ovas cozidas - e nós, criancinhas snobs que éramos, dizíamos adorar. Estávamos sempre juntos nos trabalhos de grupo - feitos tarde dentro, com mais disparate do que empenho.

 

Haveria outras coisas a contar, mas todas elas iriam dizer o mesmo: que o Zé foi a primeira pessoa que conheci com a capacidade de ser incrivelmente fixe e inteligente ao mesmo tempo. Ele sabia tão bem o que era que não precisava de diminuir a sua capacidade mental para que os outros gostassem dele. Ele tinha bem claro, dentro dele, qual o caminho que queria percorrer e foi sempre, sempre em frente. Encontrei-me com ele uns anos mais tarde, por acaso, mas ele continuava igual. E mesmo que eu não o tenha visto mais desde então, eu sei que dificilmente mudou - dificilmente pôs de lado as coisas em que acreditava e deixou de lutar por elas.

 

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Este é o 40º post da rubrica Palavras Cruzadas, criada em parceria com o P.A., mas vocês também estão mais do que à vontade para pegar nos temas e escrever sobre eles. Chega hoje ao fim esta primeira temporada, mas quem sabe novas ideias não regressam futuramente. O que gostavam de ver por aqui, dentro deste tipo de dinâmicas?

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