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Rita da Nova

Palavras Cruzadas // Esta conversa de ter filhos

Uma coisa. Uma única coisa para mudar no mundo. O meu lado mais humano e altruísta disparou logo para uma série de possibilidades: não haver cancro, aumentar os níveis de empatia, acabar com o aquecimento global. Tanta coisa que podia fazer e, ainda assim, uma pequena parte de mim fugiu a tudo isto e decidiu concentrar-se num problema que é mais meu do que dos outros.

 

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Se eu pudesse mudar uma coisa no mundo, mudava definitivamente as ideias que existem sobre a maternidade. Sobre o que é expectável uma mulher querer e fazer quando chega a uma certa idade ou fase da vida. Neste mundo utópico, ninguém faria perguntas como “então, quando é que têm filhos?” ou “e constituir família, não?”. Em vez disso, estariam apenas preocupadas com as suas próprias vidas, com os seus próprios filhos e respectivas famílias. E seguíamos todos felizes e contentes, sem nos chatearmos.

 

Desde que eu e o Guilherme casámos, as perguntas sobre os filhos têm aumentado, mas não começaram só agora. Nunca gostei que me perguntassem sobre os meus planos para procriar: não porque não esteja à vontade com a minha posição, mas porque explicá-la aos outros gera sempre uma conversa em que eu não quero entrar. É complicado explicar às outras pessoas, sobretudo às outras mulheres, que muito possivelmente nunca irei ter filhos. Vejo o choque na cara delas quando percebem que a decisão não tem nada a ver com problemas de saúde ou não gostar de crianças, mas sim com o facto de ter filhos não ir ao encontro daquilo que eu quero da vida.

 

“E se te arrependeres e for tarde demais?”, é o argumento que costumam devolver-me. Pois bem: e se tiver e me arrepender? Não é pior trazer um ser humano ao mundo sem ter grandes certezas de que é isso que quero e depois perceber que afinal não queria mesmo? Faço o quê? Devolvo? Vivo frustrada e mino a minha relação com a criança porque fiz uma coisa que afinal não queria muito fazer, mas fiz porque toda a gente achava que eu devia fazer e, sei lá, era o “passo natural”? Não me parece uma hipótese muito interessante.

 

Vamos lá ver: agora, neste momento, a minha realização enquanto pessoa não passa por ter filhos. E provavelmente nunca passará. Mas talvez passe, só saberei se essa vontade alguma vez chegar. Seja como for, será sempre uma decisão tomada entre mim e, neste caso, o Guilherme. Mais ninguém tem nada a dizer sobre isso, nem eu admito que diga. Portanto sim, se pudesse mudar uma coisa no mundo, era isto que mudava. Pedia que parassem de me melgar com esta conversa e se metessem nas vossas vidas. Boa?

 

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Este é o 24º post da rubrica Palavras Cruzadas, criada em parceria com o P.A., mas vocês também estão mais do que à vontade para pegar nos temas e escrever sobre eles. O tema desta semana foi lançado por mim, já estou aqui ansiosa para ver o que é que ele me devolve... 

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