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Rita da Nova

Qui | 13.10.22

O Nosso Irmão, Clara Dupont-Monod

Ultimamente tenho-me apercebido de uma verdade sobre esta minha vida de leitora de coisas tristes: quanto mais pequeno o livro, mais a sua capacidade de destruição de sentimentos. Não sei se concordam, mas senti-o assim que peguei em O Nosso Irmão, de Clara Dupont-Monod — que chegou cá a casa enviado pela Editorial Presença (obrigada!).

 

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Em pouquíssimas páginas, a autora consegue contar uma história com três perspectivas diferentes, tudo a partir do ponto-de-vista das pedras do terraço de uma casa. Confuso? Eu explico: numa família em tudo normal, composta por um pai, uma mãe e dois filhos, nasce uma criança deficiente. Esse acontecimento e as suas consequências são-nos relatados através do irmão mais velho (que adora esta nova criança), através da irmã (que não consegue ligar-se a ela e, portanto, se afasta) e através do próprio irmão mais novo. Quem narra a história são, então, as tais pedras — capazes de observar as dinâmicas de família ao longo dos anos.

 

Mais tarde, no nascimento da sobrinha, ele e a irmã atacaram de novo as botas de caminhada. Reencontraram o fresco matinal, o mapa amarrotado dobrado, o queixo erguido para o desfiladeiro à espera. Enquanto a irmã caminhava à sua frente pelo carreiro, respondeu à pergunta dele sobre se tinha receado um filho deficiente. «Estranhamente, não», disse ela. «Primeiro porque com o Sandro ficou logo assente que, se o bebé tivesse um problema, não o teríamos. Depois porque ter vivido o pior afasta o medo. Passámos por ele, por isso conhecemo-lo. Temos os reflexos e as instruções. O medo vem do desconhecido.»

 

Este livro é uma enorme lição de escrita: como dizer tanto em tão poucas páginas, como reduzir sentimentos em palavras sem lhes tirar significado. Gostei muito da experiência de o ler, apesar do tema duro e do estilo de escrita da autora, que achei um pouco difícil ao início. Não que use muitos floreados ou formulações complicadas, mas houve qualquer coisa que não me deixou ficar rendida logo de início — fui ficando, à medida que conhecia este irmão e a forma como teve impacto na família.

 

Já tinham ouvido falar deste livro? Ficaram com vontade de lhe dar uma oportunidade? Contem-me tudo!

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