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Rita da Nova

Qui | 17.09.20

Norwegian Wood, Haruki Murakami

Depois da má experiência que tive com A Morte do Comendador, estava com algum receio em voltar a ler Murakami - que, ainda por cima, é um dos meus autores favoritos de sempre. Bem sei que este livro, um dos grandes êxitos do escritor, é de 1987 (e as obras mais antigas dele nunca me desiludiram), mas estava mesmo de pé atrás e a achar que não ia gostar. E, felizmente, não podia estar mais enganada!

 

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Quando alguém quer começar a ler Murakami e me pergunta que livro deve escolher, eu faço sempre a mesma pergunta: gostas mais de histórias realistas ou não te importas que sejam meio fantasiosas? Norwegian Wood encaixa-se perfeitamente na primeira categoria: não tem nada de surreal a acontecer, nem mesmo a história tem contornos estranhos. A edição que li traz uma nota do tradutor muito interessante, onde contam que o próprio Murakami se desafiou a escrever uma história o mais real possível, bastante fora daquilo a que se habituou e habituou os leitores.

 

O próprio Murakami não estava à espera que este livro tivesse tanto sucesso - foi inclusivamente a obra que o catapultou para o sucesso internacional. Diz-se que toda a gente no Japão leu Norwegian Wood pelo menos uma vez e que este é o livro do autor mais vendido mundialmente. Eu achei-o um excelente exemplo do género coming of age sem ser necessariamente teen, até porque aborda questões importantes da cultura do Japão - como o suicídio e a exigência na educação. Para além disso, é visto como o livro mais autobiográfico do autor, embora ele já por várias vezes o tenha negado.

 

If you only read the books that everyone else is reading, you can only think what everyone else is thinking.

 

Aos 37 anos, Toru Watanabe é transportado para o seu passado através da música Norwegian Wood dos Beatles, que ouve durante uma viagem de avião. Todo o livro acontece dentro das memórias da personagem principal do livro, onde acompanhamos a sua transição dos 19 para os 20 anos - num ano particularmente atribulado da sua vida. Quando o seu melhor amigo Kizuki se suicida, Watanabe mantém a forte relação de amizade que tinha com a namorada dele, Naoko.

 

But who can say what's best? That's why you need to grab whatever chance you have of happiness where you find it, and not worry about other people too much. My experience tells me that we get no more than two or three such chances in a life time, and if we let them go, we regret it for the rest of our lives.

 

Naoko acaba por ir parar a um Sanatório meio alternativo, onde Watanabe a visita e onde desenvolvem a sua relação numa vertente amorosa e bastante sexual. Paralelamente, Watanabe conhece Midori, uma colega de faculdade que, apesar de comprometida, acaba por ter uma ligação bastante forte com ele. Toda a narrativa tem uma carga sexual bastante latente, que vai sendo mais ou menos explícita consoante o momento, mas que está sempre lá. Uma das maiores críticas que li ao livro foi o facto de a personagem principal ser demasiado sexual, mas vamos lá a ver - o rapaz está nos seus 20 anos, não é normal que assim seja?

 

Quando várias pessoas importantes para Watanabe decidem suicidar-se, vamos vendo o protagonista a tentar agarrar-se à vida através das pessoas que se vão mantendo nela. Ainda assim, tem sempre uma dificuldade em ligar-se verdadeiramente a elas - o que, na minha opinião, faz com que olhe para o seu passado com uma carga de arrependimento. Diria que o que interessa mais em Norwegian Wood não são tanto os acontecimentos da vida de Watanabe - como os protestos estudantis, os trabalhos que arranja ou a vida no campus da Universidade. Isto serve apenas de pano de fundo para várias tentativas falhadas de autoconhecimento e ligação aos outros.

 

Numa nota final, é sabido que Murakami é um melómano incurável e quase todos os livros dele têm referências a música. Contudo, Norwegian Wood é talvez a obra mais musical dele - não apenas pelas referências às músicas populares durante os anos 60, mas também pelo facto de Watanabe trabalhar numa loja de discos ou até pela forma como o livro está escrito. Não sendo um livro sobre música, é um livro que quase se pode ouvir. Se quiserem fazê-lo, ficam aqui com uma playlist que um amigo meu partilhou (curiosamente estávamos a ler o mesmo livro ao mesmo tempo):

 

 

Quem desse lado é fã de Murakami ou deu uma oportunidade a este livro? Quero saber!

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