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Rita da Nova

Seg | 23.08.21

My Dark Vanessa, Kate Elizabeth Russell

É muito raro acabar um livro com a sensação de “este é claramente um dos meus favoritos da vida”, mas posso dizer que aconteceu assim que fechei My Dark Vanessa, de Kate Elizabeth Russell. Aliás, corrigindo: foi acontecendo ao longo da leitura, mas tive a confirmação quando o terminei. Agora, atenção: este livro tem de vir acompanhado por um grande trigger warning sobre tudo o que tem a ver com abuso sexual, violação e grooming – não sei bem a tradução, mas neste caso talvez aliciamento de menores seja a melhor forma de descrever. 

 

my-dark-vanessa.jpg

 

O livro conta a história da relação entre Vanessa Wye, de quinze anos, e Jacob Strane, o seu professor de literatura na casa dos quarenta – e o que para nós pode parecer uma relação abusiva desde o primeiro momento, para a protagonista isso nem sempre é assim tão claro. A narrativa vai saltando entre 2000, quando a adolescente Vanessa começa a ser levada nesta relação, e 2017, quando finalmente uma aluna de Strane tem coragem de o denunciar e Vanessa se vê forçada a pensar em tudo o que aconteceu no passado. 

 

E se, durante dezassete anos, Vanessa nunca se viu como vítima, o que será que acontece quando revive os acontecimentos e os racionaliza? O caminho é rejeitar aquilo que sempre considerou como uma história de amor e apoiar outras vítimas que o denunciaram? Ou é redefinir a pessoa que se tornou, tentando dissociar-se dessa relação abusiva? 

 

Because even if I sometimes use the word abuse to describe certain things that were done to me, in someone else’s mouth the word turns ugly and absolute. It swallows up everything that happened.

 

Uma vez que é escrito na primeira pessoa, dei por mim várias vezes imersa nesta angústia interior de Vanessa, neste dilema emocional complicadíssimo de resolver. Nunca desculpando quaisquer abusadores, acho um livro importante para compreender o lado de quem é abusado – há casos coloridos com muitos graus de cinzento mesmo para a própria vítima. E mesmo sendo duro de ler (até porque é bastante gráfico e explícito em algumas descrições), fez aquilo que, para mim, os grandes livros são capazes de fazer: pôr-me numa realidade que não é a minha, fazendo-me senti-la como se fosse. 

 

Se chegaram até ao fim deste post e ficaram com vontade de ler, ou se já tinham ouvido falar e ficaram com curiosidade, fiquem com a certeza de que vai ser uma experiência de leitura bastante marcante. E antes que perguntem, sim: está traduzido para português com o título Minha Sombria Vanessa. 

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