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Rita da Nova

Dividimos a Conta // Miguel Andrade no Psi

As coisas nem sempre são simples ou como nós gostávamos que fossem. Sempre fui honesta convosco em relação a uma série de coisas e não quero que o Dividimos a Conta seja diferente, por isso cá vai: embora o Miguel Andrade estivesse na lista de convidados para esta rubrica, não era suposto ser ele o meu convidado deste mês. A vida muda e nós adaptamo-nos a ela, fazendo acontecer o que queremos mesmo que aconteça. E assim foi: eu liguei ao Miguel de um dia para o outro e ele disse logo que sim.

 

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“Quando nós estávamos aqui a morar vínhamos aqui muitas vezes pedir takeaway. Quase que nos sentimos em casa”, é uma das primeiras coisas que ele me diz quando nos sentamos para almoçar no Psi. Foi por isso que ele sugeriu almoçarmos aqui e não noutro local, como estava pensado inicialmente. É difícil estar com o Miguel e a conversa não resvalar para as nossas vidas pessoais porque nós já éramos amigos antes de ele escrever a sério sobre comida. É normal que sintam que este post é uma mistura entre o Dividimos a Conta e a rubrica em que falo das minhas pessoas - eu ficaria muito feliz se o lessem dessa forma.

 

É raro almoçarmos juntos, apesar de esta ser claramente a refeição favorita dele. Gosta muito de almoçar fora e ir cedo - por volta do meio-dia, mais tardar meio-dia e meia -, para não apanhar confusão e porque, regra geral, os empregados estão mais receptivos. Falar sobre comida é só mais um dia normal na vida do Miguel, para quem tudo gira à volta deste tema.

 

Nem sempre foi assim: enquanto petiscamos o Falafel e o Hummus com Crudités que pedimos de entrada, recorda-me como é que passou de estudar economia para trabalhar apenas com comida. Atenção, é normal que não conheçam o trabalho do Miguel porque há já algum tempo que deixou de escrever para meios portugueses. É raro escrever na sua língua materna, não apenas porque o mercado em Portugal é muito pequeno, mas sobretudo porque quer partilhar o gosto por Portugal e pela comida portuguesa com as pessoas de fora.

 

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Um bocadinho de cronologia aqui, então, para ficarem a par do percurso do Miguel. Embora tenha estudado economia, no final do curso decidiu candidatar-se a um estágio na redacção do Público para escrever sobre desporto - outra das suas paixões. Foi aqui que nos conhecemos e ficámos amigos, sobretudo devido às jantaradas e noitadas que se cumpriam religiosamente no nosso grupo mais próximo. Como podem adivinhar, era sempre ele que escolhia os restaurantes onde íamos e tornou-se claro que teria de fazer também qualquer coisa relacionada com comida.

 

Esta coisa de recomendar restaurantes é algo que se manteve até hoje. Várias pessoas que lhe apresentam outras pessoas, que lhe apresentam outras pessoas e todas pedem para que ele recomende restaurantes. A fama internacional do Miguel fez com que já tivesse sugerido restaurantes ao Aziz Ansari (sim, o comediante). Mas não parou por aí, ele chegou a ir almoçar com ele quando esteve em Lisboa. Apesar de ter alguns restaurantes de referência, o Miguel gosta sempre de conhecer um bocadinho melhor as pessoas e de fazer uma lista personalizada. Percebem agora porque é que os foodies estrangeiros querem todos conhecer o Miguel?

 

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Mas continuemos. Um blog chamado Prato à Boca surgiu quando ainda estava no Público, bem como uma passagem pela Time Out Lisboa quando terminou o estágio no jornal. “Foi lá que comecei a fazer aquilo que faço hoje em dia. Tenho a hipótese de ser freelancer e ter um horário mais flexível, muitas vezes tiro uma tarde ou uma manhã e vou explorar bairros. Foi isto de que gostei mais na Time Out.”

 

Depois, durante uns dois meses, ajudou a criar a NiT e ainda esteve uns tempos na redacção. Andando uns anos para a frente, actualmente faz muitas coisas na área da gastronomia. Entre trabalhar em marketing e gestão de comunidade de Chefs/restaurantes para uma empresa sediada em Copenhaga, que vende bilhetes para eventos de gastronomia (sobretudo de alta gastronomia), passando pela escrita de artigos para publicações internacionais e dando uma perninha em produção de artigos, podem imaginar como é um dia na vida do Miguel.

 

Contudo, a coisa torna-se difícil se lhe perguntarmos qual é o seu prato preferido, por exemplo. “As perguntas do favorito tenho sempre muita dificuldade porque vou sempre pelo que me apetece na altura. Como estou sempre a ver comida não tenho desejos ou necessidades concretas de comida.” (Dito assim até parece uma vida complicada, não é?).

 

A ligação à comida está-lhe nos genes, tanto do lado da mãe como do lado do pai. O avô materno nasceu em Goa e a avó paterna é de Alenquer. “A minha mãe fazia comida goesa com especiarias e depois, ao mesmo tempo, aos fins-de-semana ia a casa dos meus avós e comia tipo um borrego assado no forno.” Não só se habituou desde cedo a ver como se fazia a comida, como desde criança que come coisas diferentes.

 

Não há, portanto, nada de que não goste. Nem se lembra de alguma vez não ter gostado de alguma coisa. Acredita inclusivamente que, quando as pessoas dizem que não gostam de determinado alimento, tem a ver forma como está cozinhado. “Há sempre maneira de gostarmos de comer qualquer coisa. Aliás, a forma como os Chefs apresentam os pratos hoje em dia tem muito a ver com isso. Se um peixe, por exemplo, for bem cozinhado e bem apresentado, a pessoa tem vontade de comer.”

 

A certa altura chegaram à mesa os Rotis (aqueles que o Miguel vinha buscar muitas vezes quando morava no Campo Mártires da Pátria). Pedimos ambos a versão com queijo feta, espinafres, cogumelos e azeitonas. Apesar de ter prometido que comeria outra coisa numa próxima ida ao Psi, não consegui resistir a pedir este prato novamente. Fomos regando a refeição com vários jarros da Limonada Maravilha, que faz mesmo jus ao nome. É aromatizada com gengibre, raiz de açafrão, erva príncipe, hortelã e açúcar de palma.

 

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Este restaurante é um daqueles que o Miguel recomenda de caras a qualquer pessoa que venha a Lisboa, a par do Jardim dos Sentidos (para vegetarianos e não só). Já sabem que para ele é complicado dizer apenas um prato, um alimento ou um restaurante, por isso a lista continua. Nos mais recentes refere o Prado e a Taberna do Sal Grosso, “ao mesmo tempo que são relativamente novos conseguem trazer uma nova onda usando produtos portugueses, não sendo excessivamente caros.” Se a conversa for a alta gastronomia, não pode falhar uma visita à Fortaleza do Guincho, ao Feitoria e ao Belcanto. O Nunes é o último que recomenda, para comer bom marisco.

 

Não deixa de ser curioso que, quando lhe perguntei que prato tenho que comer para o conhecer, o Miguel tenha respondido sem hesitações. Marisco, disse logo. “Comer marisco num bom sítio. Porque ao mesmo tempo que é simples, e é um produto simples, também tem muito trabalho por trás.” E se vocês conhecessem o Miguel tão bem quanto eu, saberiam que isto é a melhor definição possível da personalidade dele.

 

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Apesar de ser uma pessoa simples, ele gosta de conhecer e experimentar coisas novas e diferentes. Isso explica que já tenha comido coisas como pernas de rã, línguas de pato, alforreca (estes três comigo) e foca. Esta última iguaria foi na Terra Nova, Canadá, onde há 1 milhão de focas para 300 mil habitantes. “As focas comem todo o peixe que existe, por isso há necessidade de comer foca.” Quando nos lembrámos que estávamos num restaurante vegetariano, trocámos de assunto.

 

Mas não pensem que as viagens do Miguel são todas para comer coisas estranhas. Para ele, há destinos mais simples e mais interessantes. “Copenhaga destaca-se como destino gastronomicante falando. Há para todos os gostos, desde padarias e pastelarias, a alta cozinha ou restaurantes mais normais.” Eu, recém chegada de uma viagem a esta cidade, não podia concordar mais. Como vai lá muitas vezes, vai acompanhando de perto e nota que todos os anos há novos restaurantes e cafés a abrir.

 

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Tenho que continuar a ser honesta convosco. Nem tudo são rosas na nossa amizade e há um problema em concreto que ainda não ultrapassámos. Vou directa ao assunto: tanta coisa com a comida e as gastronomias, mas o Miguel nunca cozinhou para os amigos. Pronto, já disse. Se o Miguel fosse um Chef só teria um prato de assinatura: uma simples salada caprese, que insiste em levar para todos os jantares.

 

“Se me perguntares se gosto de ir para a cozinha todos os dias, não. Prefiro muito quando há uma festa: vou ao mercado, cozinho.” Um hábito que ganhou quando fez mestrado em Norwich e começou a gostar de visitar mercados, de falar com os senhores das mercearias, com os pescadores. Cozinhar, portanto, só em dias especiais. Isso ou doces, que é mais terapêutico do que outra coisa (como eu o percebo).

 

No futuro também há-de ser complicado fazer com que o Miguel cozinhe para os amigos, porque ele já anda com ideias para novos projectos. Com uma árvore genealógica tão rica (o avô materno teve doze irmãos e quando saíram de Goa cada um foi para sítios diferentes), o plano é simples. “Gostava de ir a esses sítios, principalmente Austrália, Goa e Moçambique. Até porque o meu objectivo daqui para a frente, depois de muitos anos a viajar para fora, é concentrar-me mais em Portugal. Sempre me interessei muito pelo nosso país, mas sinto que me falta conhecer muito e partilhar essas histórias, tanto as de Portugal como as da ligação de Portugal a outros países. Tudo relacionado com a comida: como é que Portugal influenciou o mundo e como é que o resto do mundo influenciou Portugal.”

 

Eu cá estarei para ouvir essas histórias todas. E vá, pode ser com um prato de caprese à frente. Por enquanto podem conhecer melhor o Miguel e acompanhar o trabalho dele em miguelandrade.com, onde reune os artigos que vai escrevendo, ou através do Instagram. Ficaram com vontade de saber mais sobre ele?

 

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Isto ou aquilo? 

1. Refeição favorita? Almoço. 

2. Cozinhar ou comer fora? Comer fora.

3. Um restaurante de sempre? Não dá para dizer só um.

4. Uma moda gastronómica de que até gostas? Tosta de abacate.

5. Algo que cozinhas especialmente bem? Doces.

6. Uma alergia? Zero.

7. Chá ou café? Chá.

8. Uma comida do mundo? Comida francesa.

9. Um restaurante que querias que se mantivesse segredo? Gambrinus (boa sorte, Miguel)

10. Dividir a conta ou cada um paga o que comeu? Dividir a conta.

 

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Este post faz parte da rubrica Dividimos a Conta. Todos os meses convido uma pessoa para almoçar ou jantar fora em restaurantes Zomato Gold, para conversarmos sobre a sua relação com a comida. O que gosta, o que não gosta, o que aprendeu a gostar, mas manias, as receitas de família… enfim, o que surgir. 

 

[Todas as fotografias deste post são da autoria da Margarida Pestana.] 

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