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Rita da Nova

Seg | 12.11.18

Dividimos a Conta // Joana Clara no Chutnify

Se, por vezes, é mais fácil escrever sobre as pessoas que já conhecemos, neste caso tenho uma responsabilidade acrescida porque não quero deixar nada por dizer. Não foi a primeira vez de nenhuma de nós no Chutnify, o restaurante que nos acolheu, o que fez com que nos concentrássemos completamente na conversa.

 

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Ao início não achei que este fosse o restaurante ideal para retratar a Joana. Achei sempre que um restaurante mais ligado a produtos biológicos ou à regionalidade dos produtos portugueses a descrevesse melhor. No final da nossa conversa fiquei com a certeza de que não podia ser uma escolha mais certeira: os sabores do Chutnify são exactamente como a Joana - combinam o lado exótico com uma pitada de doçura e outra de acidez. Depois de lerem este texto e de a conhecerem um bocadinho melhor, espero que concordem comigo.

 

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Conhecer a Joana é entrar num mundo só dela, em que a natureza é o centro de tudo - e isso reflecte-se na relação que tem com a comida e na preocupação que tem em comer comida verdadeira, daquela que sabe à terra. Tenta quase sempre optar por produtos biológicos e compras mais locais - pode ser um bocadinho mais caro, mas para ela tem tudo a ver com a forma como encaramos a nossa alimentação. “Se for de facto importante para nós, então se calhar vamos ter que gastar um bocadinho mais.”

 

A ligação à terra e aos alimentos mais puros começou desde muito cedo, conta-me, enquanto eu bebo um Mango Lassi, ela se entretem com um Salty Lassi e ambas vamos matando a fome com um Papad Platter (variedade de Papadums com chutneys) e um Papdi Chaat (hóstia crocante com grão e romã regada com molho de iogurte, hortelã e tamarindo). As viagens de infância ao Alentejo e as férias passadas na Aldeia do Meco tinham sempre direito a visitas aos mercadinhos locais, onde se habitou desde cedo a comprar os ingredientes que compunham as refeições da família.

 

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A Joana cresceu mesmo às portas de Lisboa, na Amadora, e mesmo aí a avó Tília tinha um quintal onde plantava muitas coisas. Faço aqui um pequeno disclaimer: vão ler muito sobre esta avó neste Dividimos a Conta. É, possivelmente, a figura mais marcante da sua infância e este amor pelas avós foi aquilo que me aproximou na Joana numa primeira instância. Ambas acreditamos que não há escola como as avós, portanto podem imaginar a quantidade de coisas que tínhamos a dizer sobre elas. Bom, mas regressando aos dias passados em casa da avó: a Joana lembra-se de colher nêsperas, figos e morangos com o primo e de haver sempre vasos com ervas aromáticas. Foi algo que tentou trazer para o Ninho do Vento, como chama à sua casa, mas que - vá-se lá saber porquê - não cresce da mesma forma que os da avó.

 

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É como o café com leite, uma das primeiras memórias de infância que tem, que pelas mãos da avó tem outro sabor. Até aos 18 anos, havia um ritual sagrado: “De manhã, os meus pais deixavam-me em casa da minha avó e eu ficava a maior parte do tempo com ela. Lembro-me de, todas as manhãs, a minha avó ter o pequeno-almoço à minha espera. Era sempre café com leite feito por ela - e mais ninguém faz como ela - torradas com manteiga e frutinha ou pão de Deus com queijinho. Essa é a melhor memória que tenho, a da magia do café com leite da avó à minha espera nos dias de escola.”

 

O cenário repetia-se à tarde, no final das aulas. A Joana chegava, tinha o lanche à espera, mas o melhor vinha depois - ficavam as duas juntas na cozinha, a fazer areias, bolo de iogurte ou a cortar legumes para a sopa. O amor a cozinhar bolos nasceu aí e, hoje, é aquilo que a faz ir para a cozinha nas manhãs de fim-de-semana.

 

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Quer dizer, isso e um projecto chamado Páginas Salteadas, que comemorou o primeiro aniversário em Julho. Há bastante tempo que a Joana queria criar qualquer coisa que unisse comida e livros. Juntou-se à Catarina, à Andreia e à Vânia e todas decidiram que queriam escolher livros que as inspirassem, não necessariamente um livro de cozinha ou receitas. “Queríamos ler livros que se distanciassem completamente da comida, mas que nos fizessem despertar sensações - ou porque nos fazem viajar até outra cidade, ou porque são passados numa estação do ano, porque nos levam para a memória de infância de uma personagem… queríamos mesmo que fosse o próprio livro a pedir-nos uma receita.”

 

Escolhem um livro por mês e da leitura desse livro resultam quatro interpretações diferentes em forma de receita, que publicam nos blogs. Nunca falam das receitas que estão a pensar fazer, apenas dos livros - que tentam ao máximo adaptar à altura do ano. A Joana faz todas as receitas à primeira e, embora tente fazer coisas que fujam da sua zona de conforto, acaba quase sempre por fazer bolos.

 

Entretanto chegaram à mesa várias outras entradas: Sweet Potato Samosa (chamuça recheada de batata doce picante), Chicken and Corn Samosa (chamuça recheada com galinha, milho e garam masala) e Crispy Soft Shell Crab (caranguejo de casca mole cozinhado em especiarias indianas) e demos por nós a falar sobre um tema incontornável num jantar num restaurante indiano - o picante, que a Joana adora. Segundo ela, os pratos picantes aconchegam-lhe o coração, mas não qualquer um. “Não gosto de picante em excesso. Tem que ter a quantidade certa para eu sentir o picante, mas também o resto dos sabores e todos funcionarem em harmonia. Para mim é o que faz sentido.” E eu concordo.

 

Talvez por isso a Sopa de Camarão do Boa-Bao tivesse mesmo que fazer parte de uma última refeição nesta vida, juntamente com um Bolo de Limão e a companhia do Gonçalo, do Nicks e da Jubilee. Aliás, a presença destes três é algo que não pode faltar em qualquer momento da vida dela. Chove enquanto escrevo este post e eu imagino-a a preparar um grande pequeno-almoço de domingo em casa. Vejo uma mesa com panquecas, chocolate quente, chá, sumo natural “e a luz perfeita a entrar”, segundo as palavras da própria Joana.

 

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O Outono e os seus sabores são, claramente, a cara da Joana. Canela, noz moscada, castanhas (dentro e fora do prato), maçãs assadas, chocolate quente, muito chá com gengibre e especiarias não podem faltar nesta altura do ano em que ela se sente mais confortável e mais ligada à sua essência. Com a chegada do Outono sai menos vezes para fazer refeições fora, mas há três espaços que merecem sempre uma visita: o Tábuas, em Sintra, o Oficina do Duque e o restaurante Azenhas do Mar, que teve um papel importante no início da relação com o Gonçalo.

 

Já estávamos bastante cheias a este ponto do jantar, mas ainda fomos presenteadas com alguns dos melhores pratos do Chutnify: Paneer Tikka (espetada de queijo paneer no forno tandoor), Bhindi Masala (Quiabo salteado com especiarias indianas) e, o meu favorito, Masala Dosa (crepe salgado feito de lentilhas e arroz, recheado com batatas masala, acompanhado com chutney de coco e tomate). É estranho não ver a Joana a pegar na máquina fotográfica para registar tudo. Mesmo que as suas profissões tenham sempre passado pela comunicação, é na fotografia que o olhar dela é mais puro.

 

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A comida é aquilo que mais gosta de fotografar, uma vez que lhe permite estar mais perto de um sentido a que, normalmente, não se associa a fotografia - o tacto. Fotografar pratos é sentir texturas, gravar cores e pormenores. A fotografia é uma extensão das sensações que aquele momento à volta da mesa lhe proporcionou, um passaporte para momentos felizes que já passaram. E agora que penso, gostava que a Joana tivesse tirado mil fotografias, para que ambas pudéssemos voltar sempre a este jantar e a esta conversa tão boa.

 

Se ainda não conhecem esta andorinha, podem sempre acompanhá-la no blog Às Cavalitas do Vento e no Instagram. Em ambos os casos, fica prometido que a Joana vos consegue levar para um mundo de cores e sabores só dela.

 

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Isto ou aquilo? 

1. Refeição favorita? Pequeno-almoço.

2. Cozinhar ou comer fora? Cozinhar. 

3. Um restaurante de sempre? Tábuas, em Sintra. 

4. Uma moda gastronómica de que até gostas? Comida asiática.

5. Algo que cozinhas especialmente bem? Bolos.

6. Uma alergia? Pão e leite. Não sou intolerante, mas não me sinto muito bem quando como ou bebo. 

7. Chá ou café? Café, mas tem que ser português.

8. Uma comida do mundo? Noodles. 

9. Um restaurante que querias que se mantivesse segredo? O Tábuas.

10. Dividir a conta ou cada um paga o que comeu? Dividir a conta.

 

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Este post faz parte da rubrica Dividimos a Conta. Todos os meses convido uma pessoa para almoçar ou jantar fora em restaurantes Zomato Gold, para conversarmos sobre a sua relação com a comida. O que gosta, o que não gosta, o que aprendeu a gostar, mas manias, as receitas de família… enfim, o que surgir. 

 

[Todas as fotografias deste post são da autoria da Margarida Pestana.] 

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