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Rita da Nova

Qui | 11.08.22

Companion Piece, Ali Smith

Reuniram-se as condições perfeitas para ler Companion Piece, de Ali Smith: tinha acabado o quarteto sazonal da mesma autora há pouco tempo, estava a fazer o desafio de ler sete livros em sete dias e estava alojada no Monverde Hotel. E em cima de tudo isto, tinha mesmo muita vontade de ler algo da escritora que não estivesse relacionado com a tetralogia.

 

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A história de Companion Piece não está, por isso, relacionada com os quatro livros que li de Ali Smith, mas segue a linha temporal que tinha começado a ser desenvolvida nesses — é um livro muito actual porque fala essencialmente dos primeiros tempos de pandemia; não tanto do surgimento inesperado de um vírus, mas do isolamento que isso provocou, tanto físico como mental.

 

What a lifestyle thing life has become, I thought. We used to march in protests. We had nightmares about our eyes melting in their sockets. Now a whole new kind of communal melting of the eyes was happening in front of mine, on primetime TV, and I'd understood fully, as I stood and watched it with my mouth open, why no government was ever going to give a fuck about and no history was ever going to think it worth recording never mind bowing its head even momentarily to the deaths and fragilities of any of the millions and millions and millions of individual people, with their detailed generic joyful elegiac fruitful wasted nourishing undernourished common individual lives, who were suffering or dying right now or had died over the past year and a half in what was after all just the latest plague and whose gone souls swirled invisible in shifting murmurations above every everyday day that we wandered around in, below these figurations, full of what we imagined was purpose.

What is there to say to that loss?

Everything becomes trivial next to it.

 

A protagonista do livro está muito bem na sua vida quando uma ex-colega dos tempos da universidade lhe telefona, pedindo-lhe ajuda para uma espécie de enigma com que se confrontou. Este acontecimento, a par do estado de saúde frágil do pai, é o ponto de partida para uma reflexão profunda sobre os limites que impomos à nossa privacidade e sobre a forma como esses limites mudaram quando tivemos que nos isolar. Quantos de nós não desejaram mais contacto humano, mesmo quando isso não era um ponto importante no dia-a-dia pré-pandémico? Ou quantos de nós não desejaram exactamente o contrário, ao perceber que o isolamento pode ser bom?

 

Claro que o enredo é muito Ali Smith, com saltos temporais no tempo e uma espécie de realismo mágico que nem é bem isso — acho que não consigo pôr por palavras, mas sinto que a autora está sempre a desafiar as regras da escrita e da narrativa, o que me agrada muito. Aliás, a própria personagem reflecte sobre isso nas páginas deste livro — o que me leva a suspeitar que talvez seja mais autobiográfico do que parece.

 

Mas bom, isto para dizer que tenho cá mais dois livros da autora — How to be Both e First Person and Other Stories —, que vou querer ler brevemente porque estou cada vez mais rendida à forma como conta histórias. E vocês, que outros dela me recomendariam?