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Rita da Nova

Qua | 15.09.21

Beautiful World, Where Are You, Sally Rooney

Imaginem o cenário: a Sally Rooney lançou o seu novo livro, Beautiful World, Where Are You, que imediatamente encomendei assim que entrou em pré-venda. Tenho um domingo sem planos nem preocupações. O que é que acham que aconteceu?

a) Esperei para terminar o que estava a ler antes de começar o da Sally;

b) Li o novo da Sally com calma e ponderação, alternando a leitura com outras actividades normais para a vida humana (por exemplo: ir à casa-de-banho);

c) Li mais de metade do livro no domingo e acabei-o na segunda porque não me aguentava. 

 

beautiful-world-where-are-you-sally-rooney.jpg

 

Se responderam c), muitos parabéns! Acabaram de ganhar a possibilidade de saber o que é que eu achei sobre este livro e, se tudo correr bem, ganharão também vontade de ir a correr lê-lo também. Acho que não é novidade para ninguém que sou uma fã incondicional de tudo o que esta mulher escreve e que tenho uma grande admiração pela sua capacidade de pôr por escrito algumas das coisas que todos sentimos, mas que nem sabemos bem como sentir, quanto mais expressar. 

 

Em Beautiful World, Where Are You acompanhamos quatro personagens: Alice, uma jovem escritora, a sua amiga Eileen, e Simon, um homem que faz parte da vida de Eileen desde que ela nasceu. Falta acrescentar Felix, um rapaz que trabalha num armazém e que Alice conhece num date do Tinder, quando se muda para uma cidade pequena. Apesar de Conversations with Friends também gravitar em torno de quatro personagens, aqui senti que o protagonismo estava bem dividido entre elas – não só os capítulos são conduzidos por um narrador que se vai focando em cada um deles, mas são também intercalados com uma thread de e-mails entre Alice e Eileen, o que ajuda a descentralizar o enredo. 

 

Como em qualquer livro de Sally Rooney, não se passa grande coisa em termos de história: Alice e Felix conhecem-se, Eileen e Simon encontram-se e desencontram-se, Alice e Eileen são mais próximas por e-mail do que quando se juntam, finalmente, na vida real. Nada disto é spoiler porque a essência do livro está na forma como as personagens comunicam (ou não) umas com as outras, naquilo que lhes causa ansiedade e na forma como a educação que tiveram afecta o presente. 

 

Maybe we're just born to love and worry about the people we know, and to go on loving and worrying even when there are more important things we should be doing. And if that means the human species is going to die out, isn't it in a way a nice reason to die out, the nicest reason you can imagine? Because when we should have been reorganising the distribution of the world's resources and transitioning collectively to a sustainable economic model, we were worrying about sex and friendship instead. Because we loved each other too much and found each other too interesting. And I love that about humanity, and in fact it's the very reason I root for us to survive - because we are so stupid about each other.

 

Uma das coisas com que mais me identifiquei em Beautiful World, Where Are You foi a fase da vida em que as personagens se encontram: já não estamos na entrada da idade adulta como em Normal People, nem estamos a confrontar duas gerações diferentes como em Conversations with Friends. Aqui fala-se da chegada aos trinta, uma fase que tanto eu como a Sally estamos a viver – só que ela é um génio e eu sou uma pessoa normal. Relacionei-me muito com alguns dos temas que Alice e Eileen abordam nas suas trocas de e-mails: o medo de morrer sem ter feito nada de especial, a necessidade de nos preocuparmos com coisas mundanas quando o mundo está no estado em que está, a indecisão sobre o que queremos realmente fazer para deixar uma marca. 

 

Embora não se saiba muito sobre Sally Rooney enquanto pessoa, visto que ela é bastante reservada e nem sequer tem presença em social media, não há como não ficar com a sensação de que este livro é extremamente autobiográfico. Alice também é escritora e sinto que Sally a usou para falar do que está a viver, da ascensão da sua carreira e da Síndrome de Impostor que poderá estar a viver. Mas isto sou só eu a tentar especular sobre a pessoa por detrás dos livros – o que, na realidade, interessa muito pouco. 

 

Prometo que já me calo, vou só terminar com uma nota: adorei os três últimos capítulos e como a autora aproximou esta história à realidade que estamos todos a viver no momento. E é isto! Bem sei que desse lado há algumas pessoas que não são as maiores fãs de Sally Rooney, mas para os que são, quero saber: já leram (se sim, o que acharam?) ou vão esperar pela tradução portuguesa, que deverá sair em Outubro?

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