A Malcriada, Beatrice Salvioni
Desde setembro do ano passado que estava com muita vontade de saber o desfecho da história iniciada em A Malnascida, o livro de estreia de Beatrice Salvioni, uma escritora contemporânea que vem na tradição de vozes como Elena Ferrante e Natalia Ginzurg. Lembro-me de ter sentido que A Malnascida era demasiado curto, e fiquei feliz quando, umas semanas depois, a editora anunciou que iria publicar a continuação. Essa sequela chama-se A Malcriada e, após alguns ajustes às coisas que tinha cá para ler, consegui lê-lo no início deste ano.

Os acontecimentos deste livro têm início quatro anos depois do final de A Malnascida, quando Francesca, a nossa narradora, se vê separada da amiga Maddalena, para muitos uma encarnação do diabo. Sabe que a amiga foi internada num hospício e escreve-lhe regularmente, mas nunca obtem resposta e começa a suspeitar que talvez Maddalena esteja triste ou chateada com ela. Enquanto vive as consequências de ter ficado do lado da rapariga que toda a cidade aprendeu a desprezar, Francesca nunca desiste da amiga e está lá, à porta do hospício, no dia em que se dá a sua libertação.
Este é apenas o ponto de partida para um romance em tudo «maior» que o primeiro: no número de páginas, na complexidade da narrativa e no desenvolvimento das personagens, sobretudo das duas protagonistas, agora no final da adolescência e início da idade adulta. Gostei muito de ver como a autora foi dando seguimento a esta história e a conseguiu afastar, nos pontos importantes, da tetralogia napolitana de Elena Ferrante. Enquanto leitora, precisava que este segundo volume se fosse separando cada vez mais dessa referência literária e sinto que conseguiu.
Ainda mais do que A Malnascida, A Malcriada explora temas importantíssimos como a condição feminina, os perigos de uma sociedade misógina e machista, a importância da sororidade e a liberdade como direito universal. Não deixa de ser curioso que pareça tão atual, pese embora se refira a acontecimentos da Itália dos anos 1940 — se não servir para mais nada, que este livro seja um aviso em relação àquilo que poderá estar no horizonte para muitos de nós. Deixo uma palavra final para a nota da autora, que esclarece os factos em que se inspirou; gostei muito de conhecer as mulheres reais por detrás destas personagens.
Agora fico curiosa com o futuro de Beatrice Salvioni enquanto romancista: será que vai continuar a história destas duas mulheres ou escreverá algo não relacionado? Confesso que, entre estas duas hipóteses, preferia a segunda, para poder conhecê-la noutro registo. Há por aí leitores desta escritora? Se sim, o que acharam deste segundo livro?