Quem Matou o Meu Pai, Édouard Louis
Gosto de começar o ano a ler um livro curtinho — este ano, embora estivesse em viagem do Norte para Lisboa, consegui cumprir essa tradição com Quem Matou o Meu Pai, Édouard Louis, um autor que queria muito ler desde que assisti a uma conversa entre ele e a Tati Bernardi no FÓLIO, em outubro. Adorei ouví-lo, tinha a sensação de que ler a sua autoficção seria uma experiência semelhante e não me enganei.

Numa altura da minha vida em que procuro tornar-me um pouco mais envolvida e ativa politicamente, acredito que este livro não podia ter sido uma melhor forma de iniciar as leituras de 2026. Édouard Louis começa no presente — ou num passado muito recente, vá —, relatando o declínio físico do pai, que toda a sua vida trabalhou em fábricas e foi sofrendo vários acidentes que o incapacitaram. Confrontado com um fim de vida prematuro, o autor decide andar para trás no tempo, para compreender quem realmente condenou o seu pai à morte.
Voltar atrás significa regressar a uma infância passada numa das regiões mais pobres de França, a uma fase da vida em que Édouard Louis, ainda pequeno, teve de aprender a gerir a sua própria sexualidade num contexto violento e pautado pela homofobia. Para tal, em muito contribuiu a relação que tinha com o pai, um homem que dominava com a força, um homem que vivia para providenciar e não para acolher. Ao comparar o pai de antes com o pai de agora, o escritor tenta também compreender o pai, procurando um verdadeiro culpado para a sua degradação — neste caso, o poder político e as elites, que ganham progressivamente mais poder e riqueza à custa do trabalhador comum.
Entre as pessoas que têm tudo, nunca vi uma família ir ver o mar para festejar uma decisão política, porque para elas a política não muda quase nada.
Apercebi-me disso quando fui viver para Paris, longe de ti: os que têm poder podem queixar-se de um governo de esquerda, podem queixar-se de um governo de direita, mas um governo nunca lhes causa problemas de digestão, um governo nunca lhes esmaga as costas, um governo nunca os empurra para o mar.
A política não lhes muda a vida ou muda muito pou-co. Isto também é estranho, são eles que fazem política e, no entanto, a política quase não tem efeito na sua vida. Para os poderosos, na maior parte das vezes, a politica é uma questão estética: uma maneira de se conceber, uma maneira de ver o mundo, de construir a própria personalidade. Para nós, era viver ou morrer.
Em menos de cem páginas, Édouard Louis mostra tudo aquilo de que é capaz: revela uma autoficção assente na consciência, não apenas da sua própria vida e contexto familiar, mas sobretudo de como toda a conjetura social e política teve e tem efeitos na sua vida (e na vida de tantos franceses como ele). Em vésperas de eleições, acho um livro essencial para compreendermos tudo isto, para recuperarmos noções básicas de justiça social e do verdadeiro papel que a Esquerda pode cumprir. Recomendo muitíssimo e não têm desculpa para não ler, porque dão conta disto numa tarde!
Há por aí leitores de Édouard Louis? Tenho O Colapso cá em casa e estou muito curiosa para ler.