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Rita da Nova

Ter | 13.01.26

A Nossa Parte da Noite, Mariana Enríquez

Após ter lido A Sunny Place for Shady People (PT: Um Lugar Luminoso para Gente Sombria) em inglês, tive a sensação de que a escrita de Mariana Enríquez talvez funcionasse melhor — para mim — quando traduzida para português. Li, então, A Nossa Parte da Noite, o seu romance mais conhecido, e guardei-o para aqueles dias entre o Natal e o Ano Novo, em que fizemos o plano de ir para uma cabana no meio do nada, sem acesso aos telemóveis.

 

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Talvez essa possa ser a «dica de ouro» para ler este livro da melhor forma: se tiverem a possibilidade de o reservarem para uma altura em que possam estar completamente concentrados (férias, um fim-de-semana grande, uma escapadela), acredito que consigam mergulhar ainda mais nesta saga familiar que é tão bonita quanto impactante. A Nossa Parte da Noite começa quando Juan e Gaspar, pai e filho, atravessam a Argentina de carro, de Buenos Aires até às cataratas de Iguaçu, em direção à casa dos sogros de Juan e avós de Gaspar. Esta família pertence a uma Ordem mágica e muito poderosa, mas Juan quer libertar-se (a si e ao filho) do papel que os obrigam a cumprir.

 

...e o pai seguiu-o sem dizer nada, como se fosse a coisa mais normal do mundo, e no outro lado, no meio da vegetaçao alta e sobre um caminho lamacento, os charcos brilhantes como espelhos sob a Lua, segurou-lhe a cara com as mãos, agachou-se para o olhar nos olhos e acariciou-lhe o cabelo, a caixa estava no chão, entre ambos, e disse-lhe tens uma coisa que é minha, deixei-te uma coisa minha, oxalá não seja maldita, não sei se consigo deixar-te algo que não esteja sujo, que não seja escuro, a nossa parte da noite.

 

Acho que é tudo o que precisam de saber antes de avançarem para a leitura. Não se deixem demover pela ideia de uma Orgem mágica no meio da narrativa, porque, embora tenha alguns elementos fantasiosos, este livro é muito mais sobre trauma geracional e sobre a forma como perpetuamos esse trauma (quer queiramos, quer não). Apresenta também várias questões, como: será que os pais têm sempre de magoar os filhos para os proteger? Há mesmo coisas que têm de acontecer, haja ou não essa proteção?

 

Mariana Enríquez mistura aqui vários géneros literários — há partes mais assustadoras, outras mais místicas, outras que são fição literária no seu mais puro estado — e, a meu ver, essa é a melhor maneira de representar toda a vida que existe nesta história. Todas as personagens têm peso e força, até as secundárias, e mesmo as mais detestáveis estão bem construídas. Acho que é por isso que o leitor fica tão emocionalmente investido ao longo de 600 páginas — eu fiquei, pelo menos.

 

Não podia recomendar mais este livro, sobretudo a quem gosta de ler sobre famílias. Posso garantir que, apesar de ter adorado a experiência de leitura, A Nossa Parte da Noite é uma daquelas histórias que ficam connosco muito depois de chegarmos ao fim, e que ganham ainda mais espaço nas nossas cabeças à medida que o tempo passa.

 

Quem desse lado já leu este livro? O que acharam?