A Casa dos Espíritos, Isabel Allende
Penso muito no que se arrisca quando se relê um livro de que se gostou muito: como será que vai envelhecer? E eu, que certamente não serei a mesma leitora, como será que vou lidar com a possibilidade de não gostar tanto quanto da primeira vez? Todas estas dúvidas estiveram na minha mente enquanto relia A Casa dos Espíritos, o livro que escolhi para dezembro no Clube do Livra-te.

Para ser totalmente sincera, lembrava-me de pouquíssimas coisas da minha primeira leitura deste livro. Tinha quinze anos e foi um dos meus primeiros livros de adulta, mas recordava-me de que acompanhávamos três gerações de mulheres e de todo o contexto político da história. De resto, acabou por ser como se estivesse a ler o romance de estreia de Isabel Allende pela primeira vez. Aqui, acompanhamos então a família Del Valle Trueba ao longo de várias gerações, e ao longo de todas as mudanças sociais e políticas do Chile. Claro que, à boa moda sul-americana, há aqui uma boa dose de realismo mágico, o que eu aprecio bastante.
Clara passou a infância e entrou na juventude dentro das paredes de sua casa, num mundo de histórias assombrosas, de silêncios tranquilos, onde o tempo não se contava com relógios nem calendários e onde os objetos tinham vida própria, as aparições se sentavam a mesa e falavam com os humanos, o passado e o futuro faziam parte da mesma coisa e a realidade do presente era um caleidoscópio de espelhos desordenados onde tudo podia ocorrer. É uma delícia para mim ler os cadernos dessa época, onde se descreve um mundo mágico que acabou.
É óbvio que algumas descrições de abuso e violência, sobretudo perpetuados sobre as mulheres, podem não cair muito bem aos leitores dos dias de hoje, assim como algumas das atitudes que as personagens vão tomando. Mas não é esse também o papel da literatura, o de representar interações humanas complexas, principalmente aquelas com que não concordamos? A Casa dos Espíritos é um livro que equilibra muito bem a delicadeza e a resistência silenciosa — representadas pelas mulheres da família — e a violência e brutalidade extremas, que partem das personagens masculinas. Isabel Allende construiu uma só família onde espetros políticos e personalidades tão diferentes vão convivendo, de tal forma que vi esta representação como um reflexo da polarização que muitas famílias devem sentir e viver aos dias de hoje.
Não quero terminar sem dizer que achei especialmente inteligente que os dois narradores principais do livro fossem um avô e uma neta, um início e um fim, duas pontas completamente opostas de um espetro. Esteban e Alba dão o fim mais real possível a esta história. Se quiserem ouvir-me a falar em mais detalhe sobre este livro, podem sempre ouvir o episódio dedicado ao Clube do Livra-te de dezembro, com a participação da minha querida Fi:
E agora quero saber: como é que encaram as releituras? Confesso que esta valeu bem a pena, mas já houve outras em que a minha opinião sobre o livro sofreu um bocadinho. E sobre este livro, o que acharam se já leram? Contem-me tudo nos comentários!
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O que é o Clube do Livra-te?
É o clube do livro do podcast Livra-te — calma, não precisam de acompanhar o podcast para participar nas leituras. Todos os meses, eu e um convidado escolhemos um livro para ler em conjunto convosco e vocês podem optar por ler a escolha do convidado, a minha escolha ou ambas. Depois, podem deixar a vossa opinião nos comentários do episódio de discussão ou no Discord. Podem juntar-se a qualquer altura, venham daí!