A minha vontade de ler Half His Age foi flutuando: estava muito curiosa quando foi anunciado; depois vi algumas reviews menos boas, e esmoreceu; depois vi que estava disponível no Audible, e que era muito curtinho, e por isso decidi fazer dele a minha companhia para um dia mais atarefado — entre fazer escala na associação de gatos onde sou voluntária, passando por várias horas de condução e algumas arrumações em casa, acabei por ouvir tudo em cerca de 24h.
Jennette McCurdy é a autora de I’m Glad My Mom Died (PT: Ainda Bem Que a Minha Mãe Morreu), um livro autobiográfico sobre viver com uma mãe altamente narcisista, cujo objetivo de vida era, desde muito cedo, fazer da filha uma estrela de televisão, independentemente do custo que isso tivesse. Foi um dos primeiros audiolivros que ouvi, também narrado pela própria autora, e lembro-me de ter adorado tudo: a narração, o sarcasmo, o modo como abordou uma relação complexa sem vergonha. Mesmo sabendo que Half His Age era um livro de ficção, esperava pelo menos o mesmo estilo mordaz de escrita e uma narrativa envolvente. Possivelmente, as expectativas elevadas não ajudaram muito, mas, no final, terminei a leitura a sentir que era um livro bastante mediano.
Waldo tem dezassete anos, uma relação difícil com a mãe e uma tendência para comprar tudo o que vê na Internet. É uma rapariga bastante solitária, que, de um momento para o outro, fica obcecada com Mr. Korgy, o seu professor de escrita criativa. Ele não é particularmente atraente ou charmoso, mas Waldo fica obcecada e quer envolver-se com ele. O resto é história, e tem todas as bases deste género de história: envolvimento, dinâmicas complexas de poder, abuso desse mesmo poder, etc. De forma resumida, posso dizer que já li tudo isto (e melhor) noutros livros, como My Dark Vanessa (PT: Minha Sombria Vanessa).
É claro que existe, pelo menos em algumas partes, o sarcasmo a que a autora nos habituou — e isso foi muito positivo —, mas as personagens pareceram-me todas lineares e pouco profundas, quase como se fossem estereótipos. E, num livro que está mais assente no estudo de personagens do que no enredo, esta construção tem de ser mais bem feita. Para mim, não basta que a forma seja engraçada e provocadora, se depois não sinto que haja verdade no conteúdo.
Em resumo, não recomendaria propriamente esta leitura, a não ser que tenham mesmo muita curiosidade. A vantagem é que é bastante curto e muito fácil de ler. Já alguém leu? Se sim, o que acharam?
Regressar a Ali Smith é sempre uma experiência super prazerosa, ao mesmo tempo que, a cada livro da autora, sinto que expando horizontes na maneira como interpreto e vejo a interação humana e a sociedade em que vivemos. Estava curiosa com Gliff, um dos mais recentes romances dela, e parti para a leitura sem conhecimento prévio ou expectativas — na minha opinião, a melhor forma de ler Ali Smith.
Aqui, estamos num futuro relativamente próximo, com contornos de distopia, e começamos a história no momento em que Briar e Rose, duas crianças, têm de se separar da mãe. A mãe fica numa espécie de hotel a trabalhar, e elas seguem caminho com um homem, que eu presumi ser o padrasto, até ao momento em que ele as deixa numa casa para ficarem protegidas e continua sozinho. A partir daqui, vamos acompanhar Briar e Rose numa tentativa de sobrevivência, mas, acima de tudo, numa tentativa de compreensão acerca do que se está realmente a passar à sua volta. Em certos capítulos, Ali Smith faz-nos avançar na narrativa e compreendemos que já estamos alguns anos antes, na altura em que Briar e Rose se separaram. Briar acabou por se infiltrar no sistema, mas nunca esqueceu a irmã.
Most humans haven't got clever enough to speak the languages of other creatures yet for some reason, she said. I often wonder why. Does it make it easier to control other creatures, or even peoples, us deciding that because we don't know what they're saying, what they're saying doesn't get to mean anything, or that they don't get to have a say?
Mais do que uma história extremamente inventiva — que é —, para mim, o estilo de escrita é o que faz com que esta leitura valha tão a pena. Como as personagens principais são crianças, mostram-nos o mundo de uma forma muito diferente, que mistura ingenuidade com descoberta. Ali Smith nunca faz a papinha ao leitor: desafia constantemente, tira-nos o tapete quando começamos a sentir-nos confortáveis. Gliff fala de o que acontece quando marginalizamos certas pessoas na sociedade, sobre os perigos de um sistema altamente capitalista, e sobre o amor que sobrevive a tudo isso.
Só depois, quando já tinha terminado e fui ler coisas, é que percebi que Gliff pode ser considerado um retelling de Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, o que realmente faz bastante sentido. Deu-me vontade de voltar a ler tudo do início, para ver se entendia as referências, mas para já vou avançar para Glyph, que completa a duologia. Supostamente está e não está relacionado, como Ali Smith muito gosta de fazer (e eu adoro ler).
Há por aí fãs desta autora? Quero conhecer os vossos favoritos!
Não estava em busca de comprar este livro — embora já tivesse ouvido falar muito bem dele —, mas quando estive no Porto da última vez, passei pela Rosebud, ele estava lá bem destacado e eu não consegui resistir. A dona da livraria partilhou comigo que todas as pessoas que o liam acabavam num pranto, e eu não disse, mas pensei, que Heart the Lover, de Lily King, tinha tudo para ser o meu tipo de livro.
Já tinha gostado de ler a autora em Writers & Lovers (PT: Escritores e Amores) e na coletânea de contos Five Tuesdays in Winter, mas acho que este romance é, até agora, o meu favorito de Lily King. Em Heart the Lover acompanhamos uma jovem estudante, a quem toda a gente chama Jordan, a partir do momento em que, numa aula de literatura, conhece Sam e Yash. Ao início, Jordan envolve-se com Sam e desenvolve uma amizade muito forte com Yash, mas as coisas vão evoluindo para sítios diferentes. Em primeira metade do livro vemos a maneira como estas relações vão mudando enquanto os três são estudantes, na noutra metade avançamos vários anos e vemos como é que estas personagens reagem quando a vida as volta a juntar.
Talvez Lily King seja mesmo a escritora dos triângulos amorosos, mas eu confesso que gostei bem mais deste do que daquele que é apresentado em Writers & Lovers. Senti que as personagens de Jordan, Sam e Yash fazem muito mais justiça aos graus de cinzento que existem nestas situações, e que honram as linhas ténues entre amizade e amor. O que não deixa de ser curioso porque, no final do livro, percebemos que há uma ligação entre os dois livros — ligação essa que me fez ter vontade de reler Writers & Lovers.
Tirando ali um ponto específico da narrativa, que achei muito bem executado, é uma história sem grandes reviravoltas. Mais uma vez, Lily King demonstra ser uma escritora de sentimentos e emoções, e não tanto de ação, e eu não me importo nada que assim seja. Isso faz com que, mesmo tendo em conta a aparente simplicidade, nunca se perca beleza e profundidade.
Emocionei-me no final, embora não tanto como me foi anunciado, porque me liguei muito a estas personagens e acreditei que podiam mesmo ser reais. Acho que isso só pode querer dizer que o recomendo muito, certo? E vocês, ficaram com vontade de ler este ou outros da autora? Quero muito passar para Euphoria, que já tenho no Kobo.
Ao longo do ano passado fui vendo vários criadores de conteúdo de que gosto a fazer um desafio chamado «my year with…». A ideia é escolher um escritor com uma obra considerável e tentar ler pelo menos um livro desse autor por mês. Como há muito tempo que queria conhecer melhor os romances de Margaret Atwood — e tendo em conta que estará no Porto, em junho, a propósito do festival literário Babell — achei que era a oportunidade perfeita para juntar as duas coisas.
Listei todas as obras da autora que ainda não li e atribuí uma a cada mês do ano, por ordem cronológica. Sendo que Margaret Atwood tem muitos livros de contos, poesia, infantis e até não-ficção, para já decidi cingir-me aos romances, já que é o tipo de livro de que gosto mais. Assim sendo, comecei com The Edible Woman (PT: A Mulher Comestível), lançado em 1969. Numa nota prévia, a Atwood afirma que não foi o primeiro romance que escreveu, mas sim o primeiro que conseguiu publicar.
Outra coisa que a escritora diz nessa nota é que este romance é mais atual nos dias de hoje do que na altura em que foi escrito, e percebi exatamente o que queria dizer logo nos primeiros capítulos. Em The Edible Woman acompanhamos Marian, uma jovem mulher que se debate com a possibilidade de vir a casar com Peter, o namorado com quem tem um relacionamento estável. Esta hipótese — e, mais tarde, certeza — é o ponto de partida para uma reflexão maior sobre os papéis de género, o machismo na sociedade e, acima de tudo, sobre como é que as mulheres podem ser livres num sistema patriarcal.
Mesmo sendo o primeiro romance publicado, já se notam aqui muitas das características que identifico nas obras mais recentes de Margaret Atwood. Não falo apenas das temáticas e crítica social, mas também do próprio estilo de escrita, já que sarcasmo é o que não falta nesta história e na interação entre as personagens. Gostei sobretudo da maneira como, à medida que a identidade de Marian se dissolvia e passava a estar ligada apenas ao casamento, a personagem ia perdendo o interesse em comer, em alimentar-se. Isto torna The Edible Woman ideal para quem gostou d’A Vegetariana, de Han Kang, ou para quem gostaria de ter apreciado o livro, mas não conseguiu aguentar as descrições mais chocantes.
Terminada esta leitura, acho que não poderia ter escolhido uma melhor autora para o meu primeiro «my year with…». Em Fevereiro lerei Lady Oracle (PT: Senhora Oráculo) porque já li Surfacing (PT: Ressurgir), que seria o seguinte na lista. Há por aí fãs desta escritora? Se sim, qual o vosso favorito?