Desde Our Wives Under the Seaque estava muito curiosa com novos romances de Julia Armfield, cuja prosa delicada e sombria me apaixonou à primeira leitura. Private Rites, o mais recente livro da autora, foi ficando para trás de mês para mês, mas sabia que não queria terminar o ano sem o ler. Ainda ando aqui às voltas para compreender o que achei, uma vez que adorei certas coisas e outras não me convenceram totalmente.
As irmãs Isla, Irene e Agnes não falavam há muito tempo, mas a morte do pai — um arquiteto importantíssimo do seu tempo — força um reencontro entre elas. Neste futuro não muito distante, a chuva nunca para de cair, o nível das águas subiu tanto que a humanidade está em risco, e as irmãs refugiam-se na casa de vidro que foi a criação mais conhecida do pai. Estas três irmãs navegam então o luto de um pai tirano, as dinâmicas complexas entre elas, e sobretudo a constatação de que nada disto será importante a curto prazo, uma vez que o mundo poderá estar para acabar.
To be misunderstood is one thing, but the curious hostility of a sibling's approach lies less in what they miss than in the strange backdated nature of the things they choose to know. A person can be thirty, thirty-five, and yet still largely described by her sisters in terms of things which happened to be true at the age of seventeen.
Sendo uma reimaginação ampla de King Lear, de Shakespeare, eu diria que vale a pena ter algumas bases da peça para compreender os paralelismos — há bastantes —, mas este conhecimento prévio não é necessário para a leitura de Private Rites. Aquilo de que mais gostei aqui foi, sem dúvida alguma, a exploração da nuance que existe nas relações destas três irmãs, e da forma como o facto de serem todas queer tem impacto nas suas vidas pessoais, mas também na maneira como se relacionam umas com as outras. Gostei muito que não houvesse qualquer romantização nesta reaproximação de Isla, Irene e Agnes — e acho que, para tal, contribuiu muito a escolha de alternância de pontos de vista.
Por estar tão envolvida nesta parte, admito que toda a linha narrativa de terror e «magia» acabou por me ser bastante indiferente. Gostei do ambiente apocalíptico — tão semelhante ao verdadeiro apocalipse que poderemos mesmo vir a viver —, porque achei que dava uma carga sombria à história e era um excelente contraponto entre o luto interno das personagens e o luto externo, em relação ao mundo em geral, e isto ter-me-ia bastado para continuar a apreciar o livro.
Já alguém leu Private Rites ou outras coisas de Julia Armfield? Talvez leia brevemente Salt Slow, a coletânea de contos que publicou ainda antes dos romances, porque a prosa e os temas da autora são mesmo o meu género.
Chegámos então à última sexta-feira de dezembro, e, como já é habitual, deixei as minhas leituras preferidas do ano para o fim. Faço-o porque fico sempre com a ideia de que, nos últimos dias do ano, ainda pode surgir um livro que mereça estar nesta lista — e 2025 foi finalmente o ano em que isso aconteceu.
Antes de vos apresentar os meus favoritos, quero dizer o seguinte: apesar de 2025 não ter sido o ano em que dei conta de todos, o foco continua a ser o de limpar a minha pilha de livros físicos por ler. Não contabilizei, mas termino o ano com a sensação de que comprei muito menos livros do que nos últimos anos, o que me deixa mesmo muito feliz — é continuar assim para o ano. Falei sobre esse e outros objetivos de leitura para 2026 no episódio desta semana de Livra-te:
Agora sim, sem qualquer ordem específica, aqui ficam os dez melhores livros que li em 2025:
1. Coisas de Loucos, Catarina Gomes
«Há muito tempo que não lia nada escrito com tanta empatia e cuidado, sem deixar de pôr o dedo na ferida quando assim tem de ser. Fico muito feliz que a Leopoldina, o Noé, o Simão, o Manuel, o Valentim, o Clemente, o Ricardo e o Jaime tenham aqui uma última oportunidade de ver a sua história contada, longe do apagamento a que quase todos foram sujeitos.»
2. A Desobediente, Patrícia Reis (biografia de Maria Teresa Horta)
«Fiquei muito fascinada com este livro e com a forma tão envolvente como está escrito. Quando pegava nele, não conseguia largar; quando tinha de parar de ler, não era capaz de deixar de pensar em Maria Teresa Horta. Li-o de uma assentada precisamente porque me consumiu bastante, a acho que é provável que tenha o mesmo efeito noutros leitores. Sobretudo nesta altura, em que vemos tantos ataques às mulheres, vale muito a pena ler a biografia desta mulher e relembrar que a luta dura há muito tempo, e continuará a ser preciso batalhar muito.»
«Deixo desde já o aviso: não acho que seja um livro para toda a gente, em parte pelo facto de ser muito inventivo na maneira como nos conduz pela narrativa, mas acho que pode ser a leitura ideal para quem gosta de narrativas completamente fora do normal. A história em si é muito bonita, e terminei-a com a sensação de que é um livro muito completo: as personagens estão muito bem construídas, a prosa é lindíssima, mistura pensamentos profundos com humor, e o enredo consegue surpreender o leitor.»
«Ler Beautyland é confrontarmo-nos constantemente com as idiossincrasias da personagem, mas também com as nossas. É como se fosse um pêndulo e andássemos sempre entre «isto é estranho» e «isto faz imenso sentido». Se procuram um livro que vos faça sentir compreendidos, mas também que desafie a forma como vemos o mundo, então aqui está ele.»
«A prosa de Paul Lynch é claustrofóbica, há poucos sinais de pontuação, e embora seja preciso um ajuste inicial por parte do leitor, a verdade é que contribui para o ambiente geral do livro. É sempre publicitado como um romance distópico, e eu acho que é o melhor tipo de distopia: baseia-se em coisas que aconteceram (nomeadamente no conflito entre a República da Irlanda e a Irlanda do Norte) e mostra-nos uma realidade que, se não tivermos cuidado, poderá vir a ser o nosso futuro. Aparentemente simples, mas brilhante.»
«Amei tudo: a prosa da autora, as personagens, a construção do enredo. Raras são as vezes em que consigo me consigo desligar completamente do mundo enquanto leio, no entanto este livro consegue mesmo essa proeza. Sinto que estive lá, nos Apalaches, e que conheci esta família, com tudo o que tem de bom e tudo o que tem de mau.»
«É-me sempre complicado falar sobre livros que amei, mas vou tentar. A Language of Limbs tem tudo aquilo de que gosto numa história: tem personagens cativantes e muito bem desenvolvidas (é impossível confundir as duas Limbs), tem uma prosa belíssima e delicada, e fala sobre temas importantíssimos através de uma narrativa cativante. Deixo só o alerta para algumas descrições mais pesadas de homofobia e violência contra pessoas queer, apesar de fazerem todo o sentido no contexto em que surjem.»
«Apesar de ser um livro extremamente duro, já que aborda temas como o abuso de drogas, a violência, a prostituição e a transfobia, a verdade é que também há sempre um subtexto que nos remete para a esperança, para a necessidade de encontrar algo de bom no meio das desgraças que nos vão sendo mostradas, e que mais não são do que o “estado normal” das coisas naquele bairro. Adorei tudo, e gostei especialmente da forma como termina — é quase que o fechar de um ciclo que nos permite imaginar as coisas boas que aconteceram depois.»
9. The Bee Sting (A Picada de Abelha), Paul Murray
«Os capítulos enormes podem assustar um pouco ao início, mas senti-me muito envolvida pela história. Cada parte do livro é narrada por um membro diferente da família que acompanhamos, e eu não estava preparada para ver as minhas crenças sobre as personagens a serem desconstruidas a cada novo pedaço de informação que ganhava. Sem querer dizer de mais sobre o enredo, digo apenas que é a história de uma família irlandesa, e de todos os segredos que cada membro é obrigado a esconder dos outros. Adorei a forma como as perspetivas se vão complementando, a maneira como o autor nos faz odiar e depois empatizar com cada uma destas pessoas, a introdução do contexto sociopolítico sem parecer que o estava a fazer… e amei o final.»
«Vou ficar a pensar nesta história e nestas personagens durante muito tempo, é um daqueles livros que tem a capacidade de ficar bem colado à pele, sabem? Além disso, ainda me ensinou coisas que eu desconhecia sobre o pós II Guerra Mundial — e esta sensação de ter aprendido qualquer coisa com a ficção é algo que valorizo muito.»
Sabemos que um ano foi bom em termos de leituras quando temos dificuldade em escolher apenas dez títulos para uma lista. 2025 foi excelente, não apenas porque li muitas coisas boas e diferentes, mas porque fui bastante mais criteriosa nas escolhas, e isso fez com que a «margem de erro» fosse muito baixa. Por isso mesmo, não seria justa com os meus favoritos se são destacasse algumas mençoes honrosas que poderiam perfeitamente ter feito parte desta lista. São eles:
Para a semana, gravarei um episódio de Livra-te dedicado às melhores (e piores) leituras do ano, onde conto falar desta lista com mais detalhe. Depois deixo aqui o link, para que possam ouvir mais diretamente. Porque já me fartei de falar, termino deixando-vosos meus favoritos do ano passado, caso queiram espreitar. E, agora, sim, quero saber: quais foram as vossas leituras favoritas de 2025?
Livros como A Language of Limbs, de Dylin Hardcastle, lembram-me de porque é que não gosto de fazer listas de favoritos até o ano terminar. Não precisei de muitas páginas para ter a certeza de que este livro é um dos que vou destacar como melhores deste ano — fiquei obcecada, tanto pela história como pela prosa.
Foi-me «vendido» como o Call Me By Your Name sáfico, mas fiquei feliz quando percebi que é muito mais do que isso. Aliás, diria até que há poucos pontos em comum entre os dois livros, além da exploração de relações homossexuais, e por isso foi bom apaixonar-me por A Language of Limbs sem comparações ou expectativas. Começamos na Austrália dos anos 1970, e acompanhamos, de forma alternada, duas mulheres — Limb One e Limb Two — ao longo de mais de trinta anos das suas vidas. Os seus percursos vão-se cruzando, mesmo que elas não interajam, e esta estrutura foi uma das coisas de que mais gostei neste livro.
Limb One sai de casa dos pais quando é apanhada aos beijos com uma rapariga, e encontra a sua nova família numa comunidade queer em Sydney — na ficcionada Uranian House. Lá, perto de pessoas que se permitem viver a sua sexualidade e identidade, descobre coisas sobre si que não sabia existirem, e abraça todas elas com entusiasmo até ao momento em que a epidemia do vírus da SIDA rebenta. Limb Two, pelo contrário, vive uma vida de repressão e vergonha: embora, em adolescente, fosse apaixonada por uma amiga, acaba por viver uma vida normativa.
I think sometimes of the "closet", the place, the word and its attachments. A closet, after all, is a small space. It exists within a home, but it is starved. There is no light in there, no air, no room to fuck, no place to sleep. It is safe, for a time, perhaps. But a body in there will erode. Until its flesh is all gone and it becomes a secret of bones. To come out is to escape the secret, to stretch your limbs and bathe your skin in light. Sometimes. Because to come out can also be a sharper death, a quicker death. Total obliteration. Either way, to come out is always the end of something.
É-me sempre complicado falar sobre livros que amei, mas vou tentar. A Language of Limbs tem tudo aquilo de que gosto numa história: tem personagens cativantes e muito bem desenvolvidas (é impossível confundir as duas Limbs), tem uma prosa belíssima e delicada, e fala sobre temas importantíssimos através de uma narrativa cativante. Deixo só o alerta para algumas descrições mais pesadas de homofobia e violência contra pessoas queer, apesar de fazerem todo o sentido no contexto em que surjem.
Não podia recomendar mais este livro, que infelizmente ainda não está traduzido para português — não sei se há alguma editora com esse plano, mas acho que deviam pensar nisso com carinho. Também vi que foram vendidos os direitos para adaptação a série, e fico muito entusiasmada por poder reencontrar esta história num novo formato.
Já tinham ouvido falar deste livro ou de Dylin Hardcastle? Ficaram com vontade de ler este livro? Contem-me tudo nos comentários!
Sexta-feira de dezembro = mais um post de balanço das melhores coisas do ano aqui pelo blog. Uma das coisas de que mais gosto nesta espécie de rubrica festiva é o facto de ir adaptando à medida do que considero fazer sentido, e estes posts já foram mudando bastante. No ano passado decidi mudar ligeiramente esta categoria, tornando-a mais abrangente, e como acho que correu bem, decidi manter o formato em 2025 também. Por isso mesmo, bem-vindos a mais um post das melhores coisas que vi este ano.
Acho que tenho de começar por dizer que 2025 foi, em geral, um ano mais fraquinho no que diz respeito a filmes e séries, mas provavelmente mais forte em concertos e outros espetáculos. Uma vez que consumo bastante cultura e entretenimento, mais uma vez não consegui reduzir esta lista a apenas cinco coisas — nem era justo fazê-lo. Por fim, deixo a nota habitual de que as coisas vão ser apresentadas sem qualquer ordem específica (foi um misto de ordem cronológica e «à medida em que me fui lembrando»).
Acho que foi uma das séries que mais me deixou louca e obcecada este ano, e tenho a sensação de que não vivia uma série com esta intensidade — de desejar episódios e criar/acompanhar mil teorias — desde Lost. Ajuda muito que os episódios vão saindo com uma cadência semanal, uma lógica de que voltei a estar muito fã ultimamente. Esta segunda temporada foi tudo o que eu desejava e muito mais, e a porta que ficou aberta para a terceira (wink, wink para quem viu) deixa-me muito entusiasmada para continuar a acompanhar a série.
Não vos consigo explicar o estado de choro em que estive durante todo o filme, e o estado de choro em que estive durante as horas seguintes, e o estado de choro em que continuo a ficar quando me lembro do que vi. Sei que digo que não há ordem nesta lista, mas esta foi provavelmente a melhor coisa que vi em todo o ano — uma mistura perfeita entre uma história bem contada, excelentes interpretações e aquela carga emocional de que eu tanto gosto.
Crucifiquem-me: eu nunca tinha visto este filme. Uma grande falha, bem sei, mas agora posso juntar-me à quantidade de pessoas que o considera uma obra de arte. Eu sabia mais ou menos a ideia da história, mas acho que The Eternal Sunshine of the Spotless Mind é muito mais do que uma premissa incrível e um plot twist bem executado — todo o ambiente do filme é incrível.
Ver conteúdos da Dropout é uma das minhas coisas preferidas atualmente. Escolho destacar Game Changer porque foi a série de que mais gostei até agora, mas também já vimos VIP e Make Some Noise, que também são muito boas. Numa altura em que os serviços de streaming ficam mais caros e os conteúdos com menos qualidade, é bom pagar uma subscrição que em tudo vale a pena. Tem várias séries de humor, altamente wholesome, e perfeitas para ver às refeições ou quando só nos apetece uma coisa leve e divertida.
5. Gracie Abrams (The Secret of Us Tour)
Foi o meu primeiro concerto do ano, e eu estava muito entusiasmada para ver uma das artistas que mais tinha ouvido no ano anterior. Gracie Abrams tem uma postura muito querida e humilde em palco, o que contribuiu muito para a sensação de quentinho com que fico quando me lembro deste concerto. Além disso, há qualquer coisa de catártico em cantar aos berros numa sala cheia de mulheres.
6. Sabrina Carpenter (Short n’ Sweet Tour)
Provavelmente o melhor concerto que vi este ano, em termos de espetáculo e diversão. Em março, eu e a Márcia fomos até Londres para ver Sabrina Carpenter — e valeu cada cêntimo. Um show pop na verdadeira conceção do termo, amei.
7. Billie Eilish (Hit Me Hard And Soft Tour)
Mais tarde no ano, eu e o Guilherme voltámos a Londres para ver Billie Eilish ao vivo. Tirando o público, que estava mortiço, foi um espetáculo inacreditável.
8. Much Ado About Nothing @ West End (Londres)
Nas nossas idas a Londres, aproveitámos para ver mais peças de Shakespeare que ainda não tínhamos visto no teatro. Sem dúvida que uma interpretação glittery e cor-de-rosa de Much Ado About Nothing, com Tom Hiddleston e Hayley Atwell foi a melhor e mais divertida de todas. Nem sequer sabia sobre o que era a peça, e confesso que me diverti muitíssimo.
Mais uma voltinha na Rita chorona com as coisas que viu este ano. Pode não ser um dos melhores filmes que vi, em termos de qualidade, mas foi certamente um dos que mais me tocou e fez pensar na vida.
10. Obrigada por terem vindo
Também fui a algumas peças de teatro este ano (embora não tantas quanto gostaria) e esta, escrita e encenada pela Mariana Dixe e cocriada e interpretada pela Mariana Lobo Vaz, foi uma das melhores que vi. É um monólogo sobre teatro e sobre os pactos silenciosos e acordos que são estabelecidos entre atores e público. Muito bonito, criativo e vulnerável.
11. À Primeira Vista
Na mesma lógica, nada como regressar ao início do ano, altura em que finalmente conseguimos bilhetes para o monólogo protagonizado por Margarida Vila-Nova. Um murro no estômago, sem dúvida, mas uma peça de arte muito necessária.
12. Sinners
Não esperava ter um filme de vampiros nas minhas coisas favoritas do ano, mas a verdade é que não fecho a porta a géneros e conteúdos que fogem àquilo de que habitualmente gosto. Sinners é um desses exemplos: é muito mais sobre racismo e o legado que as comunidades racializadas deixam através da música do que sobre vampiros, e por isso merece um lugar nesta lista.
Em honra de Miss Taylor Alison Swift, reservo o número treze da lista para o documentário de behind the scenes da Eras Tour. Aliás, estou a escrever este post enquanto revejo os dois primeiros episódios e me preparo para ver o terceiro e quarto, e embora não saiba se vai responder a todas as perguntas que tenho sobre a tour, mas é definitivamente uma maneira de recordar uma das melhores coisas que vivi enquanto Swiftie.
E vocês, quais diriam ser as melhores coisas que viram ao longo deste ano? Contem-me tudo nos comentários! Enquanto não volto com mais coisas boas de 2024, se vos interessar, podem ir ver quais foram as melhores coisas que vi em 2024, bem como as séries de que mais gostei em 2023, 2022, 2021 e 2020.