A (In)Felicidade de Sara Lisa, Ana Portocarrero
Há livros que nos obrigam a sair das nossas próprias cabeças, e foi isso que senti com A (In)Felicidade de Sara Lisa, o romance de estreia de Ana Portocarrero, que decidi levar para o Clube do Livro da Biblioteca de Torres Novas, de que sou moderadora. O nosso grupo de leitores dizia andar a precisar de uma história mais alegre — ou pelo menos não tão depressiva como as anteriores — e achei que era a oportunidade perfeita para ler este livro.

Sara Lisa, a protagonista, quer ser escritora, mas cresceu a ouvir os seus ídolos a dizer que a boa escrita e a tristeza são indissociáveis; que um escritor, para conseguir tirar de si a melhor arte possível, tem de mergulhar estados de miséria e desgraça. Convencida disso, e tendo em conta que é uma pessoa inerentemente feliz, decide ir em busca dessa tristeza. Ao explorar uma zona desconhecida e sombria do Porto, acaba a conhecer Gael, uma pessoa em situação de sem-abrigo que vai pô-la em contextos inimagináveis para provar a teoria.
Porque é que eu digo que este livro me obrigou a sair de dentro da minha própria cabeça? Porque as situações que Sara Lisa vai enfrentar são um pouco inverosímeis: ela vai para a prisão contactar com reclusas, vai estagiar num escritório de advogados, vai observar uma empresa onde não percebe bem o que se está a passar… claro que seria muito complicado que uma pessoa normal tivesse acesso a estes contextos e, por isso, A (In)Felicidade de Sara Lisa requer, desde o primeiro momento, que suspendamos algumas das nossas crenças. Embora isso seja algo muito complicado para mim, neste livro em particular, o pacto entre escritora e leitora é logo muito bem estabelecido.
Gostei muito da personagem do Gael e só tive pena de não sabermos ainda mais sobre ele — apesar de termos um pouco da sua história, fiquei tão feliz com a representação de uma pessoa em situação de sem-abrigo que teria lido um livro só sobre ele. Além disso, mesmo sendo curto, acho que é um livro que consegue um bom equilíbrio entre momentos divertidos e fazer-nos pensar sobre o tema principal. Afinal, é mesmo preciso estarmos miseráveis para produzirmos boa arte?
Já alguém o leu? Se sim, o que acharam?