Este novo formato do Clube do Livra-te, em que todos os meses estou acompanhada por uma pessoa diferente, tem sido incrível para descobrir novos autores e sair da minha zona de conforto no que diz respeito às leituras. Quando convidei a Ana Grifo para novembro, já mais ou menos sabia que ela iria trazer literatura italiana, mas não antecipava que me surpreendesse logo na escolha — Paolo Cognetti, o autor d’As Oito Montanhas, era alguém de quem eu nunca tinha ouvido falar antes.
Esta história leva-nos para o meio das montanhas, nos Alpes italianos, local onde os nossos dois protagonistas que se conhecem e desenvolvem uma amizade. Por um lado, temos Pietro, um rapaz de Milão que vai de vez em quando com os pais às montanhas, visto que o próprio pai é um apaixonado por caminhar e escalar nesse contexto; por outro lado, temos Bruno, um rapaz que nunca sai da vila de Grana (segundo percebi, ficcionada).
Embora possa parecer a típica amizade entre um rapaz da cidade e um rapaz do campo, a maneira como a história está contada mostra-nos que As Oito Montanhas vai muito para além do óbvio — ao estender a narrativa ao longo de várias décadas, Paolo Cognetti consegue realmente desenvolver estas duas personagens e fazê-las evoluir com o tempo e com as experiências de vida. Pietro e Bruno deixam de ser duas crianças que se conhecem num contexto específico, passam a ser adolescentes moldados pelas suas experiências familiares e tornam-se adultos que procuram coisas muito diferentes da vida.
Além deste desenvolvimento de personagens que considero muito bem feito — uma vénia especial para a personagem do pai de Pietro —, também gostei especialmente do ambiente deste romance. As descrições dos locais, a maneira como as montanhas interagem com as personagens e as influenciam… é uma história bastante atmosférica e, eu acho, perfeita para ler entre o outono e o inverno.
Tenho muitas mais coisas a dizer sobre As Oito Montanhas, mas vou deixar que as oiçam no episódio de discussão dos livros de novembro do Clube do Livra-te, que gravei com a Ana:
Entretanto, contem-me: já conheciam Paolo Cognetti? Sei que este livro está adaptado para filme, e vou sem dúvida querer espreitar em breve.
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O que é o Clube do Livra-te?
É o clube do livro do podcast Livra-te — calma, não precisam de acompanhar o podcast para participar nas leituras. Todos os meses, eu e um convidado escolhemos um livro para ler em conjunto convosco e vocês podem optar por ler a escolha do convidado, a minha escolha ou ambas. Depois, podem deixar a vossa opinião nos comentários do episódio de discussão ou no Discord. Podem juntar-se a qualquer altura, venham daí!
Para novembro no nosso pequeno clube de leitura de duas pessoas, eu e a minha amiga Pat trocámos dramas familiares. A ideia seria procurar livros que explorassem relações familiares complexas, idealmente através de diferentes gerações (ou pespetivas) da mesma família. Como sempre, ela emprestou-me um livro de que nunca tinha ouvido falar: The End of Loneliness (PT: O Fim da Solidão), de Benedict Wells.
A vida dos irmãos Moreau muda no dia em que os pais morrem na sequência de um acidente de viação. Jules, Marty e Liz vão então para um colégio interno, onde começam a afastar-se mais e mais, e cada um acaba por seguir o seu próprio caminho, sem grandes pontos de ligação aos outros. Mas a narrativa começa antes — ou melhor, muito depois — no momento em que Jules, já um homem adulto, está internado no hospital depois de um acidente de mota. Debilitado e visitado pelo irmão, o nosso protagonista começa a relembrar o seu percurso e os acontecimentos que o levaram até ali.
Entendemos várias coisas nesse regresso ao passado, e a primeira é que Jules sempre sentiu muita necessidade de ligação a outras pessoas. Não podendo (ou não conseguindo) tê-la com os irmãos, é em Ava, uma amiga da escola, que deposita toda a sua esperança de conseguir ter alguém a quem chamar de seu. Mas rapidamente compreendemos outra coisa, também: nem sempre podemos confiar em nós mesmos quando o objetivo é o de recordar com precisão o que nos aconteceu. Temos apenas a perspetiva de Jules, mas é na mesma uma história caleidoscópica, que vai focando a lente nos anos e momentos centrais para sabermos o que aconteceu a estes irmãos.
There were things I couldn’t say; I could only write them. Because when I spoke, I thought; and when I wrote, I felt.
Quando comecei, não sabia que ia ligar-me tanto a esta história e a estas personagens. Aproveitei uns dias em que tive de andar muito de carro pelo país para alternar livro com audiolivro, e simplesmente não conseguia parar de ler e ouvir. O final deixou-me em prantos, completamente desfeita, porque embora já mais ou menos estivesse a ver para onde a narrativa estava a ir, a prosa é tão bonita que me fez sentir tudo como se se estivesse a passar comigo.
Recomendo muito que leiam, e ficam com a informação de que está disponível em português no Kobo Plus — espreitei a tradução e pareceu-me muito boa, portanto é só irem, mesmo. Ficaram com vontade de o ler?
Recordo-me com muita clareza do dia em que vi Time Shelter (PT: Refúgio no Tempo), de Georgi Gospodinov, pela primeira vez: foi numa viagem a Paris, em 2023, numa visita à livraria Smith & Son. Vi que tinha sido vencedor do Booker Prize desse mesmo ano e ficou sempre debaixo de olho para ser lido. Confesso que já estava num daqueles impasses: não estaria eu a criar demasiadas expectativas com o tempo? Por vezes, sinto que quanto mais protelo uma leitura, menos ela tem impacto em mim; há, no entranto, algumas exceções que resistem a essa erosão e este livro é, sem dúvida, uma delas.
Foi primeiro a capa que me prendeu a atenção, e depois toda a premissa: a de uma clínica para doentes de Alzheimer em cujas salas se replicam décadas do século XX. Nesta clínica do passado, há um cuidado de recriar, com o máximo detalhe possível, como seriam as divisões naquela altura — encontra-se o mobiliário certo, a música da época, jornais, livros, cheiros, etc. — porque se entende que isso permite que os pacientes regressem, mentalmente, aos anos em que estavam mais felizes, saudáveis e despertos. Acontece, no entanto, que mais e mais pessoas querem refugiar-se nesta clínica, mesmo não sofrendo de qualquer tipo de demência, apenas pelo prazer e conforto de regressar a épocas mais felizes. E depois a ideia espalha-se a nível europeu.
We are constantly producing the past. We are factories for the past. Living past-making machines, what else? We eat time and produce the past. Even death doesn’t put a stop to this. A person might be gone, but his past remains.
I no longer remember who said that a nation was a group of people who have agreed to jointly remember and forget the same things.
Adorei tudo neste livro: a maneira como esta clínica do passado é construída através de descrições, as diferentes reflexões sobre a construção de memórias, a dimensão distópica que a narrativa ganha a certa altura, lembrando-me muito das histórias de Saramago. Georgi Gospodinov tem uma cabeça incrível e uma capacidade ainda melhor de dar dimensão a esta premissa espetacular. E também devo mencionar, claro, a maneira como o narrador nos conduz, na primeira pessoa e sempre em contraponto com Gaustine, o homem que inventa isto tudo e a certa altura desaparece, fazendo-nos questionar os contornos do discernimento (o do narrador e o nosso próprio).
Precisava muito de ler este livro, que tem uma abordagem muito filosófica às questões da memória, da construção de identidade comum de um país, da importância que damos ao passado, mas que não deixa de ser interessante e ter um arco narrativo bem criado. Embora possamos sentir-nos um pouco perdidos ao início, tudo isso passa quando nos deixamos mergulhar nos capítulos. Não poderia recomendar mais esta leitura, e fico agora com The Physics Of Sorrow (PT: Física da Tristeza) e Death And The Gardener (PT: O Jardineiro e a Morte) debaixo de olho, e sei que vou querer lê-los em breve.
Demorei algum tempo a regressar às palavras de Jeferson Tenório depois d’O avesso da pele, que li em 2021 e que me marcou muitíssimo por me obrigar a vestir uma pele que não é — nem nunca será — a minha. Sabia que qualquer outro livro do autor me obrigaria a fazer esse mesmo exercício e, por isso, já fui bem preparada para este.
De onde eles vêm conta a história de Joaquim, órfão de uma mãe que morreu jovem e de um pai que nunca conheceu. É Dona Joelma, a avó, que fica responsável por tomar conta dele, ao mesmo tempo que é obrigada a lidar com o seu próprio declínio mental — a memória vai-se perdendo, e a tarefa de cuidar começa a recair em Joaquim. Através de um sistema de cotas para minorias, Joaquim consegue cumprir o sonho de entrar no curso de Letras, e fica feliz por poder estar mais perto de cumprir o sonho de escrever.
Mas a paixão pela Literatura nem sempre parece ser suficiente para lidar com a falta de dinheiro, com as horas que tem de passar em transportes, com a forma como é desvalorizado e olhado de lado por professores e colegas, só porque faz parte do sistema de cotas. Este é um livro sobre o momento em que as ilusões e os sonhos são desmanchados pela realidade e pelos outros, e sobretudo pelo estigma que vem associado à cor da pele. Admiro muito a forma como Jeferson Tenório fala sobre racismo e nos mostra todas as maneiras, das mais subtis às mais evidentes, como todos nós perpetuamos preconceitos. E gostei muito de ver como a palavra escrita foi sempre a tábua de salvação deste rapaz — mesmo quando o sistema educativo o abandonou, a necessidade de escrever resistiu sempre. Quantas vezes não é essa resistência apesar de todas as adversidades que ajuda a sobreviver?
Alternei a leitura do livro com a audição do audiolivro, narrado pelo próprio autor, que recomendo bastante caso queiram uma experiência um pouco mais emotiva. Nada como ouvir quem escreveu a pronunciar as palavras, a dar-lhes a entoação que pensou no momento de escrita. Sei que, em breve, ainda vou querer ler Estela sem Deus, também editado em Portugal — já alguém desse lado leu? Se sim, o que acharam?