Quem sou eu, e o que é que estou a fazer a ler livros de terror? E mais: a levá-los para o Clube do Livra-te, neste caso de outubro? Pois é, aproveitei que a minha amiga Sofia Carraca Teixeira é a convidada do clube deste mês para escolher finalmente Drácula, de Bram Stoker, um livro que me senti mais à vontade para ler depois de ter visto o Nosferatu mais recente.
A primeira coisa que devo dizer é que o livro, embora bastante atmosférico e descritivo do ambiente e das personagens, quase que não assusta. Ou seja, se estão na dúvida se devem ler porque, como eu, têm medo até da vossa própria sombra, não têm de ter receio. E, depois, devo também dizer que foi um livro que me surpreendeu bastante pela positiva — esperava uma prosa mais complicada de acompanhar, visto que foi escrito em 1897, mas entrei bem na narrativa logo nas primeiras páginas.
Mas já me estou a adiantar! Sobre o que é este Drácula, para quem não conhece? É a história daquele que se tornou no vampiro mais famoso do mundo, que vai da Transilvânia até Inglaterra em busca de se alimentar de jovens mulheres. E depois existem as personagens que estão a tentar pará-lo: o Professor Van Helsing, Mina Murray, Jonathan Harker e o Dr. John Seward. A narrativa começa precisamente quando Jonathan Harker, solicitador, é chamado à Transilvânia para ajudar o Conde Drácula a comprar uma casa em Londres, e a história vai sendo sempre toda contada através dos diários e das trocas de correspondências entre as personagens.
Como referia há pouco, não só achei a narrativa muito fácil de acompanhar como me pareceu um livro bastante à frente do seu tempo. Claro que fala sobretudo da luta do bem contra o mal, e da forma como todos nós somos capazes de nos deixar contaminar negativamente por más influências, mas não esperava que a sexualidade feminina fosse um tema tão central em Drácula. Ou melhor: não esperava que fosse tratado de uma forma tão progressista e com o foco na mulher.
Surpreendeu-me pelas temáticas e pelas interações tão interessantes entre personagens, mas concordo com algumas pessoas que leram o livro connosco no Discord: houve partes um bocadinho lentas, e que acabaram por não acrescentar muito à história ou ao ambiente. De qualquer modo, foi uma surpresa muitíssimo positiva e relembrou-me da necessidade de fugir da nossa zona de conforto de vez em quando.
Se ficaram com vontade de ouvir o episódio em que falamos sobre os livros de outubro, podem fazê-lo aqui:
Há por aí leitores deste género? Se sim, que livros de terror me recomendariam?
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O que é o Clube do Livra-te?
É o clube do livro do podcast Livra-te — calma, não precisam de acompanhar o podcast para participar nas leituras. Todos os meses, eu e um convidado escolhemos um livro para ler em conjunto convosco e vocês podem optar por ler a escolha do convidado, a minha escolha ou ambas. Depois, podem deixar a vossa opinião nos comentários do episódio de discussão ou no Discord. Podem juntar-se a qualquer altura, venham daí!
Até me espanta que não tenha regressado a este formato mais cedo, mas finalmente cá estamos — numa tentativa de vos pôr a par das minhas mais recentes leituras, e da minha opinião sobre elas, decidi condensar mais uma vez algumas reviews num só post. Tenho a sensação de que outubro está a ser um mês de leituras meio mornas, sem leituras que me deixem completamente agarrada, mas também não me posso queixar particularmente de nenhuma.
Mas bom, sem mais demoras, aqui ficam cinco livros que li recentemente:
Educação da tristeza, Valter Hugo Mãe
Começamos com um livro que não era para estar na minha lista de leituras de outubro, mas ainda bem que me tornei moderadora do Book Club da FNAC do Chiado — caso contrário, era provável que demorasse muito mais a lê-lo. Educação da tristeza é um livro de não-ficção, entre a descrição de memórias e crónica, que fala de uma experiência muito pessoal para Valter Hugo Mãe: a quantidade de pessoas que perdeu nos últimos anos. Apesar de ser um livro com uma temática bastante pesada, a mudança na perspetiva existe desde o título, já que o autor não quer habituar-se a estar triste, a viver num estado de espírito depressivo.
Escrever sobre as pessoas que perdeu e sobre a vida sem elas é, no fundo, uma forma de educar a tristeza, de a fintar. Gostei muito da abordagem de Valter Hugo Mãe, que em tudo contraria a ideia de que o escritor tem de estar miserável para produzir alguma coisa de jeito. Além dos textos, há também várias ilustrações do próprio autor, que aumentam o universo de pensamento deste livro.
The Thursday Murder Club (O Clube de Crime das Quintas-Feiras), Richard Osman
Ora aqui está uma história que andava para ler há imenso tempo, em tudo motivada pelo Guilherme, que adora esta série de Richard Osman. Como queríamos ver a adaptação para filme que está na Netflix, «despachei» o assunto e ainda bem que fui com as expectativas calibradas — é uma obra de arte? Não. É fofo e muito divertido de ler? Também.
Para quem não conhece, em The Thursday Murder Club acompanhamos um conjunto de idosos que vivem num lar e cujo passatempo é recuperar casos de crimes arquivados e tentar resolvê-los. Claro que tudo muda no dia em que morre alguém relacionado com a casa de repouso onde vivem, e este clube percebe que o futuro das suas casas poderá estar em risco. Pode não mudar a vida de ninguém, mas é sem dúvida uma história para ler quando não queremos algo muito pesado.
Cold Enough for Snow (Frio Suficiente para Nevar), Jessica Au
Os meus amigos já sabem que livros com dinâmica mãe e filha são a minha cara, e por isso a Pat ofereceu-me este Cold Enough for Snow. Narra a viagem que uma mãe e uma filha fazem ao Japão, mas diria que tem pouco enredo: gostei de recordar algumas descrições de Tóquio e Quioto, e de ver a dinâmica entre as duas, que me parece muito bem construída. As conversas entre as duas foram a minha parte favorita, porque se percebe perfeitamente que não estão só a falar do tema de que estão a falar, mas tive pena de que o livro não fosse mais isso.
Os Funcionários, Olga Ravn
Mais um livro «patrocinado» pela minha amiga Pat, a propósito do nosso clube de leitura de duas pessoas. Em outubro, a ideia era trocarmos livros que nos fizessem refletir e mudar perspetivas, idealmente distopias, e ela emprestou-me um de que nunca tinha ouvido falar: Os Funcionários, de Olga Ravn. Estamos a falar de uma história que mistura ficção científica com distopia, e que nos leva para a nave Seis-Mil, onde humanos e humanoides trabalham juntos. Quando aterram num planeta e recolhem objetos estranhos, o comportamento da tripulação começa a mudar.
Os Funcionários é um conjunto de testemunhos destas personagens — tanto as humanas como as que são criadas para trabalhar — acerca destas mudanças desde a chegada dos objetos. Demorei um bocadinho a entrar no formato, porque os testemunhos são curtos e alternados, e nunca há identificação de quem está a falar, e tive pena de ser tão curto porque quando estava a entrar no ritmo, terminou. Ainda assim, foi uma boa experiência e acho que dava uma boa série ou filme.
Uma Delicada Coleção de Ausências, Aline Bei
Termino com uma das novidades literárias que mais me entusiasmou nos últimos tempos, uma vez que adoro tudo o que Aline Bei escreve. Estava curiosa com o seu novo romance porque sabia de antemão que iria tentar explorar uma escrita mais dentro da prosa, embora tenha mantido a sua escrita tão característica — entre a prosa e a poesia, a ocupar a página de uma forma muito original. Gostei muito que, pela primeira vez, a autora explorasse uma história com mais do que uma perspetiva, já que nos leva para o seio de uma pequena família.
Laura e Margarida são neta e avó, e moram juntas porque a mãe de Laura foi embora. Quando chega Filipa, mãe de Margarida e bisavó de Laura, a dinâmica familiar muda e vários segredos vêm ao de cima. Só tive pena que acabasse onde acabou: sinto que a revelação final é muito boa e faz sentido, mas gostava de ter sabido o que aconteceu a seguir, de acompanhar as consequências que teve para todas as personagens.
Não posso terminar sem a pergunta da praxe: já leram algum destes livros? Se sim, o que acharam?
Já praticamente toda a gente sabe que Dulce Maria Cardoso é uma das minhas escritoras favoritas — senão a favorita —, e que tendo a gostar de tudo o que escreve, mesmo quando as histórias ou as personagens não me dizem tanto. Estava há vários anos sem ler nada de ficção da autora, até porque sou uma das eternas lesadas da segunda parte de Eliete; por isso, fui deixando esta coletânea de contos na estante, à espera do momento certo. Pois o momento certo chegou: a Tinta-da-china intuiu que a segunda parte do romance poderá estar para breve, e eu deixei de guardar Tudo São Histórias de Amor.
Costumo dizer que não é fácil falar sobre livros de contos, e reitero a minha opinião. Ainda assim, neste caso em concreto, parece-me que é uma tarefa um pouco menos inglória, já que durante toda a leitura me senti a ter acesso ao laboratório de experiências da autora. Diria que a experiência de ler contos de um escritor que admiramos é muito diferente da experiência de ler contos de um escritor «novo» para nós, e que a afinidade que está estabelecida ajuda a encontrar padrões, temáticas mais commumente exploradas, inícios de ideias que depois são desenvolvidas em romances, etc.
Tudo São Histórias de Amor reúne quase duas dezenas de contos, e pelo menos duas crónicas (que eu acho que já tinha lido numa das Autobiografias Não Autorizadas), por isso haverá certamente histórias para todos os leitores. Gostei especialmente das que partiam de acontecimentos reais, como a tragédia de Entre-os-Rios ou o desaparecimento de Joana, para criar uma narrativa paralela, para reinventar de certa forma o que tinha acontecido. Noutros contos — Este Azul que Nos Cercaou Chubby Bunny, por exemplo — Dulce Maria Cardoso explora géneros como sci-fi, que não são tão habituais nos seus outros livros.
Se gostam da escrita da autora e já conhecem mais ou menos a sua obra, então acho que Tudo São Histórias de Amor pode perfeitamente ser uma boa forma de matarem saudades. Caso ainda não tenham lido nada dela, pode ser uma porta de entrada interessante — embora eu recomendasse começarem pel’O Retorno.
Há por aí leitores da Dulce? E leitores de contos, que me possam recomendar mais coletâneas?
O que aconteceria se certos objetos e conceitos começassem a desaparecer de um dia para o outro, sem explicação aparente? E o que aconteceria se, para controlar esses desaparecimentos e garantir que as pessoas se esquecem realmente, houvesse a figura da Polícia da Memória? É este o ponto de partida de The Memory Police (PT: A Polícia da Memória), de Yoko Ogawa, um livro que me despertava muita curiosidade há já algum tempo.
A fotografia possível desta leitura em modo retiro/detox digital.
A nossa protagonista é uma escritora que mora na ilha onde estes desaparecimentos começam a acontecer, e que tem um contexto familiar muito particular — é que a mãe, que já não está viva, era uma das poucas pessoas que conseguia lembrar-se de tudo e que, por isso mesmo, tinha de fugir às investigações da Polícia da Memória. Além disso, o seu editor também precisa de fugir a esta entidade totalitária e pede-lhe ajuda para se esconder.
Começando pelas coisas de que gostei: acho que o ambiente do livro está muito bem desenvolvido, porque mesmo sem grandes descrições senti-me transportada para esta ilha. Acho que ajudou tê-lo lido naquela cabaninha para onde eu e o Guilherme fomos no meu aniversário, já que estava completamente disponível para mergulhar na narrativa. E também gostei muito de como esta premissa, sendo distópica, acaba por permitir explorar temas interessantes e «mundanos» como a importância da memória e da resistência do coletivo — não é essa a vantagem das grandes distopias?
Ainda assim, houve qualquer coisa que não me convenceu completamente. Senti que começou muito bem e que, mesmo não havendo uma explicação aprofundada desta realidade, de onde era a ilha, do motivo dos desaparecimentos, etc., a história estava a ser explorada de uma maneira que era interessante e credível. Contudo, a parte final da história tem alguns elementos de realismo mágico que, a meu ver, não encaixam nada bem em todo o sistema de crenças que a autora construiu para trás. É sem dúvida um livro que contém muito material para pensar, mas faltou-lhe qualquer coisa para se tornar um favorito.
De qualquer modo, vou querer ler mais coisas da autora porque foi uma experiência bastante positiva — dito isto, recomendam-me mais obras de Yoko Ogawa ou semelhantes?