Reviews Relâmpago #6
Pois bem, estamos de volta a este formato de reviews mais rápidas, para poder por-vos ao corrente do que têm sido as leituras deste lado. Depois de uns meses mais agitados, em que só senti que andei de um lado para o outro e raramente estive no mesmo sítio tempo suficiente para acalmar, os próximos tempos prometem ser ligeiramente mais calmos. Quando Terapia de Casal ao vivo voltar à estrada (é já no final de outubro, durante novembro e início de dezembro) pode ser que esta rubrica volte aqui ao blog — por enquanto, porém, quero ver se consigo, voltar a fazer reviews mais completas e ponderadas.
Para ficarmos atualizados com as leituras, aqui fica o que achei de cinco livros que li recentemente:
Dark Matter (Matéria Escura), Blake Crouch
Num dia absolutamente normal da sua vida, Jason Dessen sai de casa para ir beber um copo com colegas de trabalho, com a promessa de regressar a tempo de jantar com a mulher e o filho. Ora, ele acaba por ser raptado e esse evento faz com que Jason perceba que está numa realidade que não é a sua — a sua mulher não é a sua mulher, o seu filho não é o seu filho, talvez até ele não seja ele mesmo.

Achei o livro muito cinematográfico e com um ritmo bastante acelerado, visto que estão sempre a acontecer coisas. A própria prosa do autor, direta e descritiva quando tem de ser, ajuda a esta sensação de ter entrado dentro de um filme (ou de uma série, visto que já há adaptação à televisão). Ainda assim, devo dizer que o TikTok estragou a experiência que tive com o livro; vi várias reviews a dizer que o livro tinha plot twists inacreditáveis e eu achei tudo bastante… previsível? Diria que talvez tivesse sido melhor lê-lo perto do lançamento, em 2016, quando multiversos e realidades paralelas ainda eram uma novidade no entretenimento. Agora, sinto só que já li/vi isto antes.
Dead-End Memories, Banana Yoshimoto
Em agosto, eu e a minha amiga Pat voltámos a trocar livros, desta vez com o tema «hidden gems», ou seja, livros que passaram completamente despercebidos ou que merecem mais atenção do que a que tiveram. Já tinha lido Kitchen de Banana Yoshimoto, e lembro-me de ter gostado imenso, por isso fiquei contente quando percebi que era esta coletânea de contos, Dead-End Memories, o livro que a Pat me iria emprestar.

Não sabia o que esperar destes contos, mas gostei de identificar duas coisas. Primeiro, em todas as histórias havia uma certa ideia de trauma superado, de ser possível reconstruirmo-nos mesmo depois de nos acontecer algo trágico, e que muitas vezes essa superação acontece porque alguém fica do nosso lado. E, depois, a presença de comida ou gastronomia em todos os contos, como já é apanágio da autora. É tudo bastante japonês neste livro, ou seja, pode às vezes parecer que as histórias não têm propriamente enredo — ainda assim, eu aconselho muitíssimo pela beleza da prosa e das interações entre personagens.
Things I Don’t Want to Know (Coisas Que Não Quero Saber), Deborah Levy
Já há algum tempo que queria ler coisas desta autora, mas admito que começar pela não-ficção talvez não tenha sido a melhor opção. Neste Things I Don’t Want to Know, que é o primeiro de vários livros biográficos, Deborah Levy aborda a sua infância e adolescência, mostrando como a escrita a ajudou a superar momentos de solidão. Gostei da mensagem e do ponto de partida, mas confesso que a execução não funcionou para mim — a passagem constante entre presente e passado dificultou a minha ligação à narrativa da autora. Ainda assim, tenho a certeza de que quererei explorar a ficção no futuro.

Pés de Barro, Nuno Duarte
Sim, sim, sim, sim. Que livraço! Tinha ficado com vontade de o ler porque me disseram que lembrava bastante José Saramago, especialmente em O Memorial do Convento — lembro-me de ter adorado lê-lo quando andava na escola, de ter ficado completamente viciada nele durante um verão inteiro, e senti que estava na hora de procurar uma história que me lembrasse essa experiência. Pés de Barro não desiludiu e, mais do que ser apenas «um livro que lembra Saramago», consegue elevar-se a uma categoria própria.

Esta é a história da construção da Ponte 25 de Abril, em Lisboa. Nuno Duarte apresenta-nos uma série de personagens peculiares, a quem nos afeiçoamos por sabermos que representam as centenas de pessoas que vieram de todo o país para trabalhar nesta obra. Adorei o ambiente, a dinâmica entre personagens, a maneira como o autor estabeleceu paralelismos entre esta obra e a Guerra do Ultramar e, acima de tudo, a liberdade criativa que tomou no final do livro. Não é por acaso que foi vencedor do Prémio LeYa — recomendo muito, mesmo.
Goodlord, Ella Frears
Um dos formatos mais originais que li nos últimos tempos: Goodlord é um longo e-mail que a narradora escreve à sua consultora imobiliária após sentir que está a ser «obrigada» a inscrever-se numa plataforma online para gerir arrendamentos. Ava, esta tal consultora, passa a ser o alvo de um desabafo desmedido, em que a narradora despeja vários dos seus traumas.

Gostei do formato do livro e da maneira como a autora conciliou o passado da protagonista com o que estava a acontecer na vida dela no presente, mas tive pena que não houvesse mais momentos em que discorria sobre a crise da habitação. Para mim, os momentos em que o fez foram os mais interessantes, e gostava de ter tido mais. Ainda assim, se procuram um livro que represente o que é uma mulher à beira de um ataque de nervos, então este pode ser uma excelente opção.
Já sabem que estou deste lado para «ouvir» o que acharam destes livros (ou para saber quais vos despertaram mais curiosidades). Dizem-me nos comentários?