Uma recomendação de leitura que veio do Guilherme: depois de ler esta novela, achou que eu gostaria e sugeriu que a lesse. Adiei durante algum tempo — quanto mais coisas para ler, mais estas vão ficando «para trás» —, mas aproveitei algumas viagens de comboio em agosto para pegar finalmente neste livro tão curtinho, onde Steven L. Peck imagina os contornos do Inferno.
Inspirado no conto «Biblioteca de Babel», de Borges, A Short Stay in Hell conta a história de Soren Johansson, um homem Mórmon que morre e vai para o Inferno porque, infelizmente, só haveria uma religião que dava acesso direto ao Paraíso — e não era a dele. O Inferno é uma biblioteca infinita que contém todos os livros que alguma vez foram escritos ou que poderiam ter sido escritos; para poder sair de lá, o protagonista tem de encontrar aquele que conta, ipsis verbis, a sua história de vida.
Escusado será dizer que a tarefa se prolonga por toda a eternidade, e que esta não é uma história sobre conseguir sair do Inferno, mas sim sobre uma tarefa impossível de concretizar. Dessa forma, fala sobre a resistência do ser humano, sobre a capacidade de encontrar significado à nossa volta e, de uma forma meio sádica, sobre a conclusão de que, por mais que procuremos esse significado, ele não existe. Achei que colocava questões filosóficas super interessantes, e que me deu muito material de reflexão sobre estes e outros temas, mas em geral senti que haveria muito mais potencial por explorar nesta premissa.
Anticipation is a gift. Perhaps there is none greater. Anticipation is born of hope. Indeed it is hope's finest expression. In hope's loss, however, is the greatest despair.
Nem sempre sou da opinião de que os livros devem ser maiores — na maior parte das vezes até acho que se prolongam desnecessariamente —, mas em A Short Stay in Hell creio que faria todo o sentido haver um aprofundamento maior de algumas questões. De qualquer dos modos, se se interessam por livros que vos põem a pensar sobre questões metafísicas, creio que este pode ser uma excelente opção.
Já alguma vez tinham ouvido falar sobre ele? Infelizmente não está traduzido, mas se forem subscritores Kobo Plus podem lê-lo gratuitamente. Que outras histórias do mesmo género me recomendariam?
Numa manhã do final de agosto, pus-me a caminho da Feira do Livro do Porto de comboio e precisava de um livro para me fazer companhia. Lembrei-me de que tinha este pequeno Lavores de Ana, de Ana Cláudia Santos, na prateleira dos livros por ler — e achei que era do tamanho certo para conseguir lê-lo durante o tempo de viagem.
Ana Cláudia Santos apresenta-nos a protagonista desta que é a sua primeira obra de ficção extensa através de uma situação caricata: Ana ficou trancada na varanda, num edifício residencial de Nápoles, e precisa da ajuda dos vizinhos, até então desconhecidos, para conseguir voltar a entrar em casa. Este início de livro prendeu-me logo: queria saber como é que a personagem se iria safar, claro, mas interessava-me sobretudo perceber quem era e porque é que estava naquela cidade italiana. Tradutora, regressa a Nápoles quinze anos depois de uma primeira estada, essa ainda com o fulgor da juventude — a narrativa conduz-nos ao longo dos paralelismos entre estas duas Anas, estas duas Nápoles, estes dois contextos.
Pensa-se que se ama um lugar pelo que este tem de singular, quando é possível que o que se ama seja a pessoa que se foi, a felicidade e o prazer que se experimentou então. Porém, não se ama menos um lugar por se ter sofrido nele.
Parti para a leitura sem grandes expectativas e soube-me muito bem acompanhar a forma como a prosa da autora e a personalidade da protagonista combinam tão bem, tanto nos momentos em que descreve a vida em Nápoles e a interação com as pessoas que conhece, como nas alturas mais introspetivas na narrativa. Tão depressa estamos a achar graça a um diálogo, como levamos com frases aparentemente simples como: «O final da vida era uma mulher sozinha numa casa.». Está longe de ser um livro só sobre a maneira como os lugares impactam o nosso crescimento, já que é também um fragmento de história sobre o que é ser mulher, sobre envelhecer, sobre os diferentes lutos que vamos fazendo ao longo da vida. Pouco importa que seja autoficção ou pelo menos inspirado em factos verídicos, o que importa é que se nota que é escrito com verdade.
A única coisa menos positiva que aponto é ser um livro tão curto. Teria ficado por muito mais tempo dentro da cabeça desta protagonista, e talvez por isso o final me tenha parecido um pouco apressado. Ou melhor: eu queria ler mais sobre o tema da maternidade escrito pela Ana Cláudia Santos, e essa parte soube-me a pouco. Diria que é bom sinal, e por isso cá estarei deste lado para continuar a acompanhar a ficção da autora.
Já leram este Lavores de Ana? Se sim, o que acharam?
Chegou a altura de vos falar de um dos livros mais antecipados deste ano, tanto apenas para mim como para a comunidade literária como um todo. Estava entusiasmada com a chegada de Katabasis, o novo livro de R. F. Kuang, desde que, no ano passado, a ouvi falar sobre ele. A autora apresentou-o como sendo uma descida ao inferno e, a partir daí, o BookTok teve um surto psicótico: ele era listas de livros que devíamos ler antes de este sair, ele era gente com cópias antecipadas a dizer que o livro fazia as pessoas sentirem-se burras…
Tanta coisa para nada, digo eu, que depois de ter ido à apresentação em Cambridge — sítio onde se passa o livro — e de o ter lido nos dias seguintes, achei a história bastante fácil de entender, mesmo com as referências bibliográficas e filosóficas que faz. Por isso, se estão a ler esta publicação para ver se devem ou não arriscar, começo por dizer que não é tão assustador quanto parece.
Sobre o livro em si: Katabasis é uma palavra do grego antigo para definir uma «descida», que pode ser física, mas na maior parte das vezes refere-se à descida ao Inferno ou submundo. É uma destas viagens que o livro descreve: numa Cambridge que em tudo é semelhante à da nossa realidade, na decada de 1980, Alice Law é estudante de pós-graduação no departamento de Magia (voilà, o elemento fantástico da história). O livro começa quando Alice decide ir até ao Inferno para tentar resgatar a alma do Professor Grimes, que morreu na sequência de um acidente — mas não irá sozinha porque Peter Murdoch, um colega dela, teima em fazer-lhe companhia.
"If I die, I die," said Alice. "But there's no life otherwise, I think. Life is an activity that's got to be sustained. You have to fight for it. Otherwise it's no life at all. That's just it. It's just an impulse. And we've both determined that's not enough. You know that."
R. F. Kuang quer provar que a academia é uma espécie de Inferno, e, por isso mesmo, os círculos deste submundo têm sempre qualquer coisa que ver com o campus universitário de Cambridge. Longe de mim estragar-vos a experiência de o ler, ainda assim faz sentido dizer-vos algumas coisas sobre o livro. A primeira é que gostei muito da leitura porque vai na mesma onda de Babel, também da autora, embora eu tenha achado Babel um pouco mais complexo — tanto pelo tema como pela quantidade de personagens que nos são apresentadas. Depois, também acho importante mencionar que a escrita é bastante acessível: a autora vai sempre contextualizando e explicando termos que o leitor pode não conhecer e, além disso, a interação entre personagens é muito coloquial. Em jeito de conclusão, senti-me muito envolvida nesta aventura, quase como se fosse uma terceira pessoa nesta descida ao Inferno, e gostei muito de ver como é que a premissa se concretizou, acima de tudo pelas forma como encaixou todas as temáticas (das mais académicas às mais humanas, como o suicídio).
Acredito que não seja um livro para qualquer pessoa, mas se gostam de ler Dark Academia, não se importam com um pouco de magia nas histórias ou com personagens que têm tudo para vos irritar (mas depois conquistam), então acho que podem perfeitamente dar uma oportunidade a Katabasis. Estou curiosa: já leram, querem ler? Contem-me tudo!
Pois bem, estamos de volta a este formato de reviews mais rápidas, para poder por-vos ao corrente do que têm sido as leituras deste lado. Depois de uns meses mais agitados, em que só senti que andei de um lado para o outro e raramente estive no mesmo sítio tempo suficiente para acalmar, os próximos tempos prometem ser ligeiramente mais calmos. Quando Terapia de Casal ao vivo voltar à estrada (é já no final de outubro, durante novembro e início de dezembro) pode ser que esta rubrica volte aqui ao blog — por enquanto, porém, quero ver se consigo, voltar a fazer reviews mais completas e ponderadas.
Para ficarmos atualizados com as leituras, aqui fica o que achei de cinco livros que li recentemente:
Dark Matter (Matéria Escura), Blake Crouch
Num dia absolutamente normal da sua vida, Jason Dessen sai de casa para ir beber um copo com colegas de trabalho, com a promessa de regressar a tempo de jantar com a mulher e o filho. Ora, ele acaba por ser raptado e esse evento faz com que Jason perceba que está numa realidade que não é a sua — a sua mulher não é a sua mulher, o seu filho não é o seu filho, talvez até ele não seja ele mesmo.
Achei o livro muito cinematográfico e com um ritmo bastante acelerado, visto que estão sempre a acontecer coisas. A própria prosa do autor, direta e descritiva quando tem de ser, ajuda a esta sensação de ter entrado dentro de um filme (ou de uma série, visto que já há adaptação à televisão). Ainda assim, devo dizer que o TikTok estragou a experiência que tive com o livro; vi várias reviews a dizer que o livro tinha plot twists inacreditáveis e eu achei tudo bastante… previsível? Diria que talvez tivesse sido melhor lê-lo perto do lançamento, em 2016, quando multiversos e realidades paralelas ainda eram uma novidade no entretenimento. Agora, sinto só que já li/vi isto antes.
Dead-End Memories, Banana Yoshimoto
Em agosto, eu e a minha amiga Pat voltámos a trocar livros, desta vez com o tema «hidden gems», ou seja, livros que passaram completamente despercebidos ou que merecem mais atenção do que a que tiveram. Já tinha lido Kitchen de Banana Yoshimoto, e lembro-me de ter gostado imenso, por isso fiquei contente quando percebi que era esta coletânea de contos, Dead-End Memories, o livro que a Pat me iria emprestar.
Não sabia o que esperar destes contos, mas gostei de identificar duas coisas. Primeiro, em todas as histórias havia uma certa ideia de trauma superado, de ser possível reconstruirmo-nos mesmo depois de nos acontecer algo trágico, e que muitas vezes essa superação acontece porque alguém fica do nosso lado. E, depois, a presença de comida ou gastronomia em todos os contos, como já é apanágio da autora. É tudo bastante japonês neste livro, ou seja, pode às vezes parecer que as histórias não têm propriamente enredo — ainda assim, eu aconselho muitíssimo pela beleza da prosa e das interações entre personagens.
Things I Don’t Want to Know (Coisas Que Não Quero Saber), Deborah Levy
Já há algum tempo que queria ler coisas desta autora, mas admito que começar pela não-ficção talvez não tenha sido a melhor opção. Neste Things I Don’t Want to Know, que é o primeiro de vários livros biográficos, Deborah Levy aborda a sua infância e adolescência, mostrando como a escrita a ajudou a superar momentos de solidão. Gostei da mensagem e do ponto de partida, mas confesso que a execução não funcionou para mim — a passagem constante entre presente e passado dificultou a minha ligação à narrativa da autora. Ainda assim, tenho a certeza de que quererei explorar a ficção no futuro.
Pés de Barro, Nuno Duarte
Sim, sim, sim, sim. Que livraço! Tinha ficado com vontade de o ler porque me disseram que lembrava bastante José Saramago, especialmente em O Memorial do Convento — lembro-me de ter adorado lê-lo quando andava na escola, de ter ficado completamente viciada nele durante um verão inteiro, e senti que estava na hora de procurar uma história que me lembrasse essa experiência. Pés de Barro não desiludiu e, mais do que ser apenas «um livro que lembra Saramago», consegue elevar-se a uma categoria própria.
Esta é a história da construção da Ponte 25 de Abril, em Lisboa. Nuno Duarte apresenta-nos uma série de personagens peculiares, a quem nos afeiçoamos por sabermos que representam as centenas de pessoas que vieram de todo o país para trabalhar nesta obra. Adorei o ambiente, a dinâmica entre personagens, a maneira como o autor estabeleceu paralelismos entre esta obra e a Guerra do Ultramar e, acima de tudo, a liberdade criativa que tomou no final do livro. Não é por acaso que foi vencedor do Prémio LeYa — recomendo muito, mesmo.
Goodlord, Ella Frears
Um dos formatos mais originais que li nos últimos tempos: Goodlord é um longo e-mail que a narradora escreve à sua consultora imobiliária após sentir que está a ser «obrigada» a inscrever-se numa plataforma online para gerir arrendamentos. Ava, esta tal consultora, passa a ser o alvo de um desabafo desmedido, em que a narradora despeja vários dos seus traumas.
Gostei do formato do livro e da maneira como a autora conciliou o passado da protagonista com o que estava a acontecer na vida dela no presente, mas tive pena que não houvesse mais momentos em que discorria sobre a crise da habitação. Para mim, os momentos em que o fez foram os mais interessantes, e gostava de ter tido mais. Ainda assim, se procuram um livro que represente o que é uma mulher à beira de um ataque de nervos, então este pode ser uma excelente opção.
Já sabem que estou deste lado para «ouvir» o que acharam destes livros (ou para saber quais vos despertaram mais curiosidades). Dizem-me nos comentários?