É muito raro ler comédias românticas ou livros do género de Savor It (PT: Quando o Verão Terminar…), de Tarah DeWitt, que são mais dentro do smut —no fundo, literatura erótica se quisermos dizer em português. Sendo este livro a escolha da Joana para outubro no Clube do Livra-te, lá fui eu, de mente aberta e a tentar tirar o máximo partido possível da leitura.
O início até me convenceu: somos levados até à pequena cidade de Spunes, na costa dos Estados Unidos, onde conhecemos Sage, uma jovem mulher nascida e criada na terra, que está sempre rodeada dos irmãos e vive numa quinta com imensos animais resgatados. Fisher Lange, que era um chef de sucesso em Nova Iorque, mas teve uma série de percalços na carreira, é enviado para Spunes para acompanhar a abertura de um novo restaurante — e leva consigo a sobrinha, que ficou orfã de mãe recentemente. Os caminhos dos dois acabam por cruzar-se e fazem um pacto: Sage vai ajudá-lo a que o restaurante seja mais bem aceite pela comunidade e, em troca, Fisher ajuda-la-á a ganhar um concurso local.
A premissa era interessante e os primeiros capítulos até desenvolvem bem as personagens, dando-lhes alguma profundidade humana e emocional. O momento em que as duas personagens se encontram e começam a envolver-se, porém, foi onde o livro começou a perder-me. Achei tudo apressado e mal construído, as cenas de sexo são abomináveis (se fizeram alguma coisa pela minha libido foi fazê-la desaparecer) e todo o enredo deixou de ter qualquer interesse. Além disso, nunca senti que havia propriamente conflito — sim, “quando o verão terminar” Fisher supostamente volta para Nova Iorque e isso fará com que deixem de poder estar juntos, mas é impressão minha ou estas duas personagens são adultas e podem fazer o que quiserem? Para quê o drama todo de “temos de saborear o verão”, “temos de aproveitar”, “não podemos envolver-nos mais do que fisicamente porque isto vai acabar”?
Talvez a única coisa que safe este livro seja mesmo o início relativamente interessante e o sarcasmo com que a autora vai pontuando a escrita, mas isso não foi suficiente para me interessar. Acho que podem perceber que passei grande parte da leitura a revirar os olhos, e que este livro conseguiu o oposto do que era suposto, isto é, ser uma leitura leve e tranquila para intercalar com livros mais densos. O que é que eu aprendi com este livro? Que tenho de parar de esperar que os livros deste género façam sentido ou sejam bem escritos… 🤷♀️.
Ainda assim, se gostam de comédias românticas e de livros que puxam um bocadinho mais por cenas de sexo, então talvez possam dar uma oportunidade a este. Já eu, sei que fugirei a sete pés se o livro tiver “Tarah DeWitt” na capa.
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O que é o Clube do Livra-te?
É o clube do livro do podcast Livra-te — calma, não precisam de acompanhar o podcast para participar nas leituras. Todos os meses, cada uma de nós escolhe um livro para ler em conjunto convosco e vocês podem optar por ler a escolha da Joana, a escolha da Rita ou ambas. Depois, podem deixar a vossa opinião no grupo do Goodreads ou no Discord. Podem juntar-se a qualquer altura, venham daí!
Parece que este ano fui mesmo invadida pelo espírito do Halloween e, embora ainda não tenha coragem de ver filmes muito assustadores, tenho pontuado a minha lista de leituras com alguns livros diferentes, dentro do terror e do thriller. Decidimos levar também um pouco desse ambiente para um episódio do Livra-te, para o qual lemos este Hidden Pictures (PT: Desenhos Ocultos), de Jason Rekulak.
Já conhecia este livro porque o Guilherme leu-o há uns tempos e estava louco com ele, e já me tinha dito que eu provavelmente gostaria de o ler. Não se enganou: Hidden Pictures conta a história de Mallory Quinn, uma rapariga que acabou de sair de uma clínica de reabilitação e consegue um trabalho como babysitter de Teddy, um rapaz de cinco anos que é filho de um casal bastante rico. Ao início tudo corre bem: Mallory tem um espaço separado da casa principal onde vive e pode fazer o que quiser depois do horário de trabalho, e Teddy é um menino bastante fácil de lidar. Até ao momento (claro!) em que começa a desenhar, no meio de outras imagens inocentes, uma figura assustadora a que dá o nome de Anya.
Embora os pais de Teddy lhe vão explicando que Anya é apenas uma amiga imaginária, e que não vale a pena falar sobre ela, esta entidade vai ganhando força — os desenhos vão sendo cada vez mais realistas e ela começa a ter a capacidade de influenciar o mundo real. Mallory vai tentar perceber o que se passa, e quem afinal é esta figura assustadora, e o resto terão de descobrir com a leitura.
One of the hardest things about recovery is coming to terms with the fact that you can’t trust your brain anymore. In fact, you need to understand that your brain has become your own worst enemy. It will steer you toward bad choices, override logic and common sense, and warp your most cherished memories into impossible fantasies.
A parte mais assustadora deste livro é, sem dúvida, o facto de incluir os desenhos de Teddy — gostei muito que fossem o fio condutor da história e que fossem realmente introduzidos na narrativa, para podermos acompanhar os acontecimentos ao mesmo tempo que a protagonista. Ainda assim, não achei um livro tão assustador quanto Incidents Around the House, de Josh Malerman, que li há pouco tempo e que, tendo adorado, passou a ser a minha referência de assustómetro. Acho que pende mais para o thriller do que para o livro de terror e, sim, fui completamente surpreendida com o twist final — fui criando várias teorias ao longo da leitura, mas não me aproximei sequer do desfecho.
Foi uma leitura bastante agradável e não tão assustadora quanto eu antecipava, e não adorei que termine de uma forma fofinha, mas acho que é mesmo uma questão de gosto. E vocês, já se aventuraram neste livro? E que outros do género me recomendariam?
Apaixonei-me pela capa e pela sinopse quando vi este livro na Feira do Livro de Lisboa deste ano — e, não sendo uma compra planeada, acabou por ser uma boa adição à minha lista de livros para ler, bem como uma excelente leitura para esta altura do ano. É que Brutes, de Dizz Tate, é um daqueles livros estranhos e viciantes em igual medida.
Estamos em Fall Landings, na Flórida, uma área com parques de diversões e lagos pantanosos, quando coisas estranhas começam a acontecer. É um grupo de raparigas adolescentes quem narra este livro, e é através delas que sabemos que Sammy, uma rapariga mais velha e fascinante, desapareceu de forma misteriosa. Sempre nas margens desta narrativa, este narrador coletivo vai-nos contando tudo o que sabe sobre Sammy e sobre as relações que ela foi estabelecendo, sobretudo com Eddie, o rapaz por que estava apaixonada. Fruto de uma observação quase obsessiva, este grupo de raparigas vai desenrolando o fio a um mistério que se vai provar bem mais profundo do que se achava.
Brutes! How can you girls be such brutes?” They cried. We cried, too, because we felt they were saying we were wrong. We felt foul and fatherly and frightened of ourselves. We tried to make ourselves small. We were coiled up but we were not broken. And we knew our mothers’ idea of goodness was not measured by morals but by how much noise we made. And we quickly grew tired of trying to be good in their way.
Adorei a escrita de Dizz Tate, é muito diferente e vem bastante em linha com outros livros mais estranhos que tenho lido, como Penance, Bunny ou até The Virgin Suicides. Lembrou-me muito este último, principalmente no narrador escolhido para contar esta história, e tem alguns laivos de mistério e terror porque, sejamos honestos, há poucas coisas tão assustadoras quanto raparigas adolescentes. Também gostei bastante que fossemos acompanhando duas linhas temporais e que o ponto de vista mudasse: no passado são as raparigas enquanto grupo que nos revelam o que aconteceu, mas no presente vamos sabendo delas individualmente e na primeira pessoa.
Não diria que este livro mudou a minha vida ou que vai para a lista dos favoritos deste ano, mas sem dúvida que foi uma experiência muitíssimo agradável e que me diverti muito a lê-lo. Infelizmente, ainda não está traduzido para português, mas acho que seria uma boa adição ao catálogo da Euforia (👀). Desse lado, têm outras recomendações dentro deste género que me possam recomendar?
Já se passaram semanas desde que terminei o mais recente romance de Sally Rooney, Intermezzo, e andei a adiar a escrita desta publicação porque ainda não sei bem o que achei sobre esta leitura. Não é novidade para ninguém que Rooney é uma das minhas autoras favoritas, pelo que estava entusiasmadíssima com a possibilidade de ler mais um livro dela. Às primeiras páginas, contudo, soube que estava perante uma história e uma escrita muito diferentes daquilo a que nos habituou — e isso causou uma sensação de estranheza que ainda não me abandonou totalmente.
Começando pelo fim, uma coisa é certa: tenho gostado mais de Intermezzo à medida que o tempo passa. Tem sido como um vinho que não é imediatamente prazeroso, mas cujo sabor vai ficando na boca e aprendemos a apreciar melhor. Diria que essa foi a principal diferença nesta experiência de leitura: eu, que sempre tive facilidade em entrar nas histórias de Sally Rooney, encontrei-me com alguns obstáculos e algumas pedrinhas na engrenagem, que foram causando alguns soluços na leitura. Não foi, de todo, uma leitura fluida e sôfrega como costuma ser, mas tenho-me vindo a aperceber de que isso pode ter sido uma coisa boa.
Intermezzo conta a história de dois irmãos, Peter (32) e Ivan (22), nos tempos imediatamente a seguir à morte do pai. Peter é advogado bem-sucedido, que batalha com a dificuldade de gerir as relações amorosas que tem com duas mulheres bastante diferentes; Ivan joga xadrez de competição e é o oposto do irmão em quase tudo. O livro narra, no fundo, este intermezzo, este período de intervalo e de luto nas vidas dos dois irmãos e das pessoas que gravitam à volta deles. Como sempre nos livros da autora, adorei as interações entre personagens, a dimensão humana que consegue representar nos diálogos, sim, mas sobretudo no que não é dito.
Sometimes you need people to be perfect and they can’t be and you hate them forever for not being even though it isn’t their fault and it’s not yours either. You just needed something they didn’t have in them to give you.
Neste interregno, os dois irmãos exploram facetas das suas vidas que ainda não tinham tido protagonismo. Fala-se de temas muito atuais neste livro — por exemplo, relações não-monogâmicas, saúde mental, sobre celibato involuntário —, mas houve uns quantos momentos em que gostaria que alguns aspetos fossem explorados ou tratados com um pouco mais de cuidado, nomeadamente toda a história de fundo entre Peter e Sylvia, e as consequências físicas e mentais do acidente que ela sofreu. Nesse sentido, apesar de ter gostado que Rooney escolhesse dois protagonistas masculinos, nem sempre senti que os conseguisse desenvolver da forma mais justa ou que nos fizesse empatizar com eles nos momentos certos.
Uma última nota sobre a escrita: foi aqui que notei a maior diferença. Se terminei os livros anteriores da autora com a sensação de que não havia uma palavra a mais, aqui já não posso dizer a mesma coisa. Em vários momentos achei que exagerou a escrita, que a tornou demasiado complicada onde não tinha de ser e que simplificou onde poderia ter procurado mais profundidade. Senti-o sobretudo nos capítulos do ponto de vista do Peter e de forma geral na segunda parte do livro, onde notei uma certa redundância de ideias — acredito que para dar a sensação de repetição de padrões de pensamento, mas não era preciso tanto.
Isto para dizer o quê? Que gostei muito do livro, que vou gostando cada vez mais à medida em que falo ou penso sobre ele, mas que a leitura não me arrebatou como eu achava que iria acontecer. Estou muito curiosa com a vossa opinião, também! Se já leram, o que acharam?