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Rita da Nova

Ter | 12.12.23

E Então, Lembro-me, Catarina Costa

Tenho a sorte de, este ano, me ter tornado mais próximas de várias escritoras portuguesas e isso fez com que soubesse da existência de livros que, de outra forma, poderiam não ter estado no meu radar. E Então, Lembro-me, da Catarina Costa, é um desses casos.

 

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Intrigou-me desde logo pela premissa: Laila acorda numa cama de hospital, amnésica e sem ovários. Está na Irislândia, um sítio onde vão parar pessoas como ela — pessoas que estão a ser punidas, sujeitas à castração mental e física, por crimes que não se lembram de cometer. Mal acorda, Laila é enviada para uma casa partilhada, onde conhece outros residentes na mesma situação e que lhe mostram as dinâmicas existentes. Na Casa Amarela partilham-se as memórias recuperadas de interesse geral, para a compreensão da sociedade como um todo; na Casa Azul partilham-se memórias íntimas e pessoais, aparentemente irrelevantes para a população.

 

Adorei os temas explorados no livro — por exemplo, a reflexão sobre a maneira como as nossas memórias são fundamentais para criar identidades e sobre o que podemos fazer quando as perdemos — bem como a abordagem muito cinematográfica a este mundo distópico. Nunca tinha lido nada da Catarina e gostei das imagens que cria e da maneira como consegue transportar-nos para um lugar que não existe, mas que, de certa forma, está no imaginário de todos nós.

 

Morre-se cedo na Irislândia. Os efeitos físicos da castração encurtam-nos a vida. No meu caso, estão a encurtar-me a vida em décadas. Que idade terei eu? Trinta e cinco? Quarenta? Seja como for, morrerei na flor da vida. Apenas os opiáceos, oferecidos por uma dúbia generosidade, me acalmam.

 

A única coisa que não me convenceu totalmente foi alguma repetição de palavras e expressões ao longo dos parágrafos, mas admito que seja um aspeto muito específico e pessoal — é provável que não impacte de todo a vossa experiência. Embora seja um livro curto (menos de 200 páginas), preparem-se porque é denso: os capítulos são longos e a história é muito intrincada, passamos muito tempo dentro da cabeça daquela personagem a tentar descortinar o mundo que nos é apresentado ao mesmo tempo que ela.

 

Fiquei com muita vontade de ler mais coisas da escritora, sobretudo o Periferia, até porque já percebi que costuma explorar histórias dentro da distopia — se forem fãs do género, vão certamente gostar. E vocês, conhecem a obra da Catarina Costa? Se sim, que títulos dela me recomendam?