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Rita da Nova

Ter | 28.11.23

The Silence of the Girls, Pat Barker

Pat Barker é uma das autoras mais recomendadas quando o assunto são reinterpretações de mitologia grega. Ainda não tinha lido nenhum dos livros dela, apesar de ter cá este The Silence of the Girls (PT: O Silêncio das Mulheres) há algum tempo, então decidi que seria a minha leitura mitológica deste mês — e posso dizer que fiquei bastante satisfeita com a experiência.

 

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Neste que é o primeiro de pelo menos três livros, voltamos à guerra de Tróia e vemo-la do ponto-de-vista de Briseis, uma troiana que foi sequestrada e oferecida como prémio a Aquiles — depois de este ter assassinado o seu marido e irmãos. Esta personagem é quase representativa daquilo por que as mulheres de Tróia passaram enquanto escravas e, por isso, o livro tem várias descrições bastante gráficas.

 

We’re going to survive–our songs, our stories. They’ll never be able to forget us. Decades after the last man who fought at Troy is dead, their sons will remember the songs their Trojan mothers sang to them. We’ll be in their dreams–and in their worst nightmares too.

 

Gostei bastante da personagem da Briseis, bem como da relação de amizade que desenvolve com Pátroclo e da dinâmica de poder que existe entre ela e Aquiles, mas senti que o livro tinha alguns problemas de ritmo — para isso pode contribuir o facto de ser o primeiro de três volumes. E talvez por já ter lido outras autoras de livros deste género, com cuja escrita me identifiquei mais (como Madeline Miller ou Natalie Haynes), devo confessar que o estilo de Pat Barker não me impactou particularmente.

 

De qualquer das formas, lê-se bastante bem e gostei muito de contactar com uma história que sempre foi vista da perspetiva masculina a ser explorada não só pelas mulheres, mas também por pessoas em situação de escravatura. Se, por acaso, leram The Song of Achilles (PT: O Canto de Aquiles) e ficaram apaixonados pela relação entre a Briseis e o Pátroclo, então este é o livro certo para vocês. Sei que o segundo livro, The Women of Troy (PT: As Mulheres de Tróia), continua a ser narrado por esta personagem feminina, pelo que talvez lhe dê uma oportunidade daqui a uns tempos.

 

Já leram alguma coisa desta autora? E que outras escritoras deste género me recomendariam?

Sab | 25.11.23

Penance, Eliza Clark

Há umas semanas tive a sorte de poder entrevistar a escritora Eliza Clark, a propósito da chegada de Boy Parts, o seu primeiro livro, ao mercado português. No meio da conversa (que podem assistir aqui), acabámos por falar da dificuldade de escrever um segundo romance e ela explorou um pouco o processo de Penance — deixou-me muito curiosa para ler e acabei por escolher fazê-lo em audiolivro.

 

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Este segundo livro é uma crítica interessante à cultura do true crime: não apenas os filmes, documentários e podcasts que se criem em torno do tema, mas também toda a cultura de internet, como fóruns e Reddit, que vão ganhando vida própria. Para esta história, Eliza Clark inspirou-se em dois casos de true crime conhecidos para criar aquele que dá vida ao livro: a morte de uma adolescente em Crow-on-Sea, Reino Unido, que foi posta a arder por duas amigas. Já se passou quase uma década desde os acontecimentos e embora vários podcasters e internautas tenham explorado diferentes versões, nunca houve um relato mais extenso e que compreendesse várias das partes envolvidas. Até que o jornalista Alec. Z. Carelli decide fazê-lo e promete publicar uma versão praticamente oficial dos factos — recorrendo a entrevistas com testemunhas, a horas de investigação e, até, a correspondência com as culpadas.

 

Confesso que o universo do true crime de é bastante desconhecido e que não sou, de todo, o género de pessoa que gosta de acompanhar estes casos todos e de ver até as partes mais horrendas. Até sou um bocado avessa a essa curiosidade mórbida e, talvez por isso, tenha gostado bastante da crítica que Eliza Clark faz neste livro. Mais do que ser uma reinterpretação de um caso conhecido, Penance explora todas as narrativas paralelas que se criam quando um destes casos vem a público — e eu achei muito bem conseguido.

 

É um livro muito diferente de Boy Parts, mas tem uma coisa em comum: não podemos confiar no narrador principal. Acho que esta característica de ter sempre um unreliable narrator começa a ser já uma assinatura da autora — e eu não me importo nada, porque adoro. Deixo também uma nota acerca do audiolivro, já que a narrativa é composta por vários formatos — entrevistas, transcrições de podcast, testemunhos, etc. Podem ir à confiança porque o livro é narrado por diferentes pessoas, por isso nunca se vão perder na história.

 

Quem desse lado já leu este ou o Boy Parts?

Qui | 23.11.23

Best of Friends, Kamila Shamsie

Home Fire (PT: Conflito Interno) é o livro mais conhecido de Kamila Shamsie — e também aquele que lhe valeu o Women's Prize for Fiction em 2018 —, mas não foi aí que me estreei na obra dela. Há uns tempos assinei uma subscrição chamada Books That Matter, que promete enviar apenas livros escritos por mulheres, e Best of Friends foi o primeiro que recebi.

 

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Demorei cerca de um ano a chegar lá, mas finalmente decidi incluí-lo na minha lista de livros a ler durante o mês. Estava bastante curiosa porque toda a gente me falava muito bem da autora e, sobretudo, porque este livro se foca na amizade entre duas mulheres durante décadas — um tema sobre o qual adoro ler. Começando então pela premissa: Best of Friends acompanha Zahra e Maryam, duas mulheres paquistanesas que são amigas desde crianças apesar de terem contextos familiares bastante diferentes. Um episódio por que passam, juntas, na adolescência acaba por deixar marcas que duram até à idade adulta, quando ambas já abandonaram o Paquistão para morar em Londres.

 

Gostei muito da descrição da amizade entre as duas, acho que são personagens muito bem desenvolvidas — principalmente nas descrições de quando são crianças e adolescentes. Nessa parte do livro, senti-me transportada para a saga A Amiga Genial, de Elena Ferrante. Contudo, quando a narrativa dá um salto temporal e viajamos para Londres, creio ter perdido alguma ligação com as personagens.

 

Zahra knew when Maryam lied because, until now, Zahra had always known the truths of Maryam’s life. But she couldn’t be sure of that anymore. A drift had begun, which would only grow as the years went on. Deep down they both knew that no one had the kind of friendship when they were forty that the two of them had at fourteen.

 

Isto para dizer que me parece um bom livro para quem gosta de explorar a dinâmica muito própria que existe entre mulheres, mas que enquanto história estava à espera de mais — talvez porque toda a gente tem Home Fire (PT: Conflito Interno) em tão boa conta. Fiquei com vontade de ler esse, porque gostei bastante da escrita da autora. Por um lado, talvez seja bom ter começado por um livro que não me tenha enchido tanto as medidas, assim não há o risco de me desiludir com os próximos.

 

Desse lado, há leitores de Kamila Shamsie? Se sim, que livros dela me recomendam?

Ter | 21.11.23

Encontro, Natasha Brown

Tinha alguma curiosidade em ler Encontro (ENG: Assembly) de Natasha Brown, mas depois vi algumas opiniões contraditórias e acabei por afastá-lo da minha pilha de livros. Acontece que há uns tempos fui convidada do podcast Vale a Pena, da Mariana Alvim, e este foi o livro que ela me ofereceu no final do episódio. Achei que era um sinal para tirar as teimas!

 

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Acho que a melhor forma de descrever este livro é a celebre frase: no início não percebi nada e no fim acabei como comecei. Narrado na primeira pessoa por uma mulher negra, Encontro é um conjunto de pensamentos, reflexões e acontecimentos bastante fragmentados — saltamos de uma coisa para outra sem grande linha narrativa, o que contribui para a confusão inicial. É através do seu fluxo de consciência que vamos percebendo várias coisas: que trabalha da City de Londres, na área financeira, e que teve de lutar bastante para lá chegar, combatendo o preconceito; que foi convidada para a festa de aniversário de casamento dos pais do namorado; que lhe foi diagnosticado um problema de saúde cuja gravidade prefere esconder.

 

Achei que tinha reflexões importantíssimas sobre ser uma mulher negra num mundo de homens brancos — a área em que trabalha ou a família do namorado são apenas dois exemplos disso. É isso que levo desta leitura, já que o estilo da autora não é mesmo para mim (e olhem que eu gosto bastante de um livro em fluxo de consciência). Não sei, achei-o exageradamente erudito e sinto que isso só me afastou daquilo que a autora queria contar, em vez de me aproximar.

 

De qualquer das formas, valeu a pena pela tradução da incrível Tânia Ganho! Se estiverem com curiosidade, e a debater-se com as reviews contraditórias, eu diria para arriscarem porque o livro só tem 116 páginas — não vos vai tirar muito tempo, mesmo que não gostem, e pelo menos sempre verificam por vocês!

 

Quem já leu este Encontro? Qual a vossa opinião?

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