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Rita da Nova

Qui | 31.03.22

Asymmetry, Lisa Halliday

Lembram-se dos blind dates with a book que eu trouxe de Edimburgo, para eu e a Joana abrirmos “em directo” no Livra-te? Pois bem, senhoras e senhores, parece que eu finalmente li o meu — Asymmetry, de Lisa Halliday. Nunca tinha ouvido falar do livro ou da autora antes de o trazer embrulhado para casa, mas fico feliz por ter conhecido.

 

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Começo por dizer que este é um daqueles livros que vale mais pela escrita e pelas observações sobre a condição humana do que propriamente pelo enredo — se gravitam mais naturalmente à volta de livros que têm um enredo detalhado e em que tudo faz sentido no final, talvez não seja o livro certo para vocês. Como eu até gosto de livros que são mais no plot, just vibes, senti-me logo embrenhada neste, embora ao fim de umas vinte páginas não estivesse assim muito entusiasmada.

 

Asymmetry está dividido em três partes, que são três narrativas quase independentes, mas têm relação entre si (se lerem, gostaria de saber como as relacionaram). Em Folly, Lisa Halliday conta a história de Alice, uma editora jovem, e Ezra Blazer, um escritor famoso. A diferença de idades entre os dois dá o mote para reflexões sobre a mortalidade que achei muito interessantes. A segunda parte, Madness, relata a tentativa de Amar, iraquiano e norte-americano, de estar dois dias em Londres antes de visitar a família no Iraque, isto depois do 11 de Setembro. A última parte, mais pequena, é toda escrita em formato de entrevista e explora a vida de Ezra Blazer através da música.

 

Everyone’s hourglass was running down. Everyone’s but Beethoven’s. As soon as you are born the sand starts falling and only by demanding to be remembered do you stand a chance of it being upturned again and again.

 

Gostei muito do título porque a questão da assimetria está sempre bastante presente no livro: a assimetria entre novo e velho, entre vivo e morto, entre o Oriente e o Ocidente, entre ser-se homem e ser-se mulher. E não se limita a tratar estas questões apenas do ponto de vista das questões amorosas, mas desenha também um cenário político.

 

Não está traduzido para português, mas se gostam de livros com narrativas pouco convencionais, talvez sejam capazes de gostar deste. A escrita é muito boa e muda consoante a parte que estão a ler, o que achei bastante interessante. Já tinham ouvido falar deste livro?

Ter | 29.03.22

Suíte Tóquio, Giovanna Madalosso

Entrar mais na literatura brasileira contemporânea é algo que está nos meus planos de leitora. Fui inclusivamente à Livraria da Travessa recentemente e trouxe de lá um livro meio às cegas, mas depois falo-vos sobre ele. Para já, quero muito contar-vos a minha experiência com Suíte Tóquio, de Giovanna Madalosso, que veio parar cá a casa a propósito de uma oferta da Fnac.

 

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Ainda bem que mo ofereceram porque, caso contrário, era provável que o livro me tivesse passado ao lado — não por não ser o meu género, mas porque tenho a certeza de que outros livros iriam ganhar a minha atenção primeiro. Não conhecia a autora, mas bastou ler o primeiro capítulo para me apaixonar pela escrita e para ter a certeza de que adoraria a história. Não me enganei.

 

Suíte Tóquio conta a mesma história através de duas perspectivas: a de Maju, ama da menina Cora, e a de Fernanda, a mãe da menina. Logo no início entendemos que Maju faz planos de raptar a criança e de a levar consigo para Mandaguaçu, onde nasceu e cresceu antes de ir para São Paulo trabalhar. Completamente embrenhada na sua vida profissional e amorosa, Fernanda demora algum tempo a entender que a filha desapareceu. À medida que acompanhamos as duas linhas de narração vamos entendendo os motivos que levaram Maju a querer ficar com Cora e as razões pelas quais Fernanda parece ligar pouco à criança.

 

Estou raptando uma criança. Tento afastar esse pensamento, mas ele persiste enquanto descemos pelo elevador, cumprimentamos o Chico, saímos pelo portão. São coisas que fazemos todos os dias, descer, cumprimentar o Chico, sair pelo portão, andar pisando só nas pedras pretas ou nas brancas da calçada, mas hoje é diferente mesmo que eu não esteja fazendo nada diferente, porque tenho a sensação de que o exército branco olha pra mim. Foi coisa da dona Fernanda, inventar esse nome, exército branco. E até que ela está certa, somos mesmo um exército, ainda mais a essa hora da manhã, quando todas vêm pra praça com seus uniformes brancos carregando bebês ou crianças, e então batem papo empurrando carrinhos e balanços com bebês ou crianças. Um mundo que até ontem era o meu mundo mas que agora parece me olhar com desconfiança. Será tudo loucura da minha cabeça? Diga, minha Nossa Senhora, é tudo loucura?

 

O que mais gostei neste livro, além da forma como a escrita de Giovanna Madalosso se transforma para dar vida a cada uma destas personagens, foi o facto de nenhuma delas ser a “boa da fita” — ambas estão a fazer coisas profundamente erradas, mas quando as conhecemos melhor conseguimos entender porquê. É um excelente livro sobre a maternidade: sobre mulheres que quererem ser mãe e não podem, sobre mulheres que podem e não usufruem, e sobre o ressentimento que existe entre estes dois grupos.

 

Li algumas reviews no Goodreads, de leitores brasileiros, que afirmam que estas personagens são meio caricaturadas. Podem até ser, mas parece-me um pouco necessário que o sejam, para nos conseguirem fazer empatizar com dois géneros de pessoas tão diferentes. Mas bom, gostava de saber a vossa opinião, caso o tenham lido. Falamos ali nos comentários?

Qui | 24.03.22

Everyday Sexism, Laura Bates

Acho que nunca tinha sublinhado tanto um livro — no Kobo, claro — como fiz com Everyday Sexism, da Laura Bates. E provavelmente não me teria cruzado com ele se não fosse a nossa próxima convidada do Livra-te (ainda segredo 🤫) a recomendá-lo, mas ainda bem que o li.

 

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Neste livro de não-ficção, Laura Bates explora exaustivamente as situações em que as mulheres (e também os homens) são sujeitas a atitudes sexistas de forma recorrente e diária. Grande parte das histórias e entrevistas que a autora partilha são consequência de um projecto com o mesmo nome, em que as pessoas eram incentivadas a partilhar os seus testemunhos — via formulário ou até através do Twitter. Acho que esta foi uma das coisas de que mais gostei na experiência de ler o livro: o facto de as opiniões da autora serem quase sempre suportadas, quer por estatísticas, quer por histórias reais.

 

A autora dividiu os capítulos em vários temas, como a mulher no local de trabalho, a maternidade, o que é ser uma rapariga, o que é andar na escola e na universidade enquanto mulher, etc. Nos primeiros capítulos senti alguma repetição dos temas, mas rapidamente compreendi as motivações que estão por detrás deste detalhe constante na escrita da autora — é que, apesar de ter sido publicado em 2014, o livro ainda me parece demasiado actual. As atitudes, o abuso, os comentários... é como se fosse escrito sobre coisas que se passam nos dias de hoje, o que acaba por ser um pouco assustador.

 

Rape is not a sexual act; it is not the result of a sudden, uncontrollable attraction to a woman in a skimpy dress. It is an act of power and violence. To suggest otherwise is deeply insulting to the vast majority of men, who are perfectly able to control their sexual desires.

 

Não vou mentir: terminei a leitura mais desanimada do que quando comecei, mas este não é um livro para divertir, é um livro para relembrar que ainda há muito caminho por percorrer, que o feminismo é relevante e que estes temas devem mesmo continuar a ser trazidos à luz, para que sejam cada vez mais desmistificados. Tenho mesmo muita pena que não esteja traduzido para português porque sei que muitas (e muitos) de vocês iriam gostar de o ler — mas, se estiverem afim disso, o inglês não é assim tão complicado.

 

Já conheciam a autora, o livro e o projecto que lhe deu origem? Contem-me tudo nos comentários!

Ter | 22.03.22

Piranesi, Susanna Clarke

Demorei algum tempo a escrever esta review e ainda não tenho a certeza de que seja capaz de vos convencer a ler este livro com o que vou dizer sobre ele. Piranesi, de Susanna Clarke, é um daqueles livros meio ingratos de recomendar, já que a experiência será tão melhor, quanto menos o leitor souber de antemão. Ou seja: vão mesmo ter de ir às cegas.

 

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Recomendaram-me que lesse (obrigada, Tomás! 🙌), mas disseram-me isso mesmo: “acho que vais gostar, mas não pesquises nada antes”. Se vocês são como eu e até fazem questão de não investigar sobre filmes, séries ou livros antes de os consumirem, perfeito. Se são daquelas pessoas que preferem ter algum conhecimento para calibrar expectativas, então digo-vos o que este livro me pareceu: é como se um thriller tivesse tido um filho com A História Secreta, da Donna Tartt, mas a criança fosse educada por alguém que gosta de ler reinterpretações de mitologia.

 

Perhaps that is what it is like being with other people. Perhaps even people you like and admire immensely can make you see the World in ways you would rather not. Perhaps that is what Raphael means.

 

Exactamente por ter partido para a leitura sem saber grande coisa além da sinopse da contracapa, que também não revela tanto quanto isso, senti que até meio não estava a perceber grande coisa. Caso decidam ler Piranesi e se se confrontarem com a mesma sensação, por favor não desistam — é mesmo suposto irmos percebendo tudo aos poucos.

 

Em resumo: não posso explicar-vos porquê, mas adorei este livro e recomendo muito que o leiam. Espero que confiem o suficiente no meu gosto literário para acreditarem no que digo e pegarem nele também! Posto isto, uma pergunta para quem já leu: o que acharam?

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