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Rita da Nova

Qui | 17.02.22

Sinopse de Amor e Guerra, Afonso Cruz

Não é segredo para ninguém que Afonso Cruz é um dos meus autores favoritos — agora que penso nisso, é provável que comece todas as reviews de livros dele assim, mas pelo menos sou coerente. Depois de ter lido O Vício dos Livros, estava a fazer-me falta um Afonso Cruz de ficção, pelo que fiquei muito contente quando saiu este Sinopse de Amor e Guerra.

 

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É o segundo livro da colecção Geografias, onde o autor centra a narrativa em diferentes pontos do globo — o primeiro, Princípio de Karenina, passa-se entre o Vietname e o Camboja. Devo confessar que me relacionei mais com este segundo, cuja acção se desenrola depois da II Guerra Mundial, em Berlim. Tenho um fascínio muito grande por esse período da história e gosto sempre de ver narrativas passadas nessa época.

 

Falando-vos um pouco da premissa: embora as personagens principais, Theobald e Bluma, pareçam feitos um para o outro, a construção do Muro de Berlim vem desafiar o destino. De um momento para o outro, duas pessoas que estão juntas desde sempre, vêem-se separadas por uma construção de pedra que afectou centenas de famílias.

 

Sabem o que é que eu senti, apesar de ter adorado ler este livro? Que o enredo que Afonso Cruz construiu não passou disso mesmo, de uma premissa. Havia tão mais para explorar aqui, tive sempre a sensação de que faltava detalhe e tempo para que as personagens marinassem, para que me identificasse com elas, para que entendesse as suas motivações. Pareceu-me efectivamente mais uma sinopse ou um conto do que uma novela, mas tinha potencial para muito mais. 

 

Enquanto a guerra é uma tragédia, a maior de todas, o amor é uma felicidade, a maior de todas, mas há algo em comum: quando se ausentam, qualquer um deles, deixam uma ferida eterna na proporção da perda que oferecem.

 

Não me interpretem mal, eu amo Afonso Cruz e tudo o que ele escreve — tenho a certeza de que leria com o mesmo interesse se ele deixasse alguma coisa escrita num livro de reclamações, por exemplo. Mas, por isso mesmo, precisava de mais. Afonso, se por acaso houver um milagre e leres esta modesta review, por favor, dá-me mais num próximo livro. Gosto muito de ti e escreves como ninguém, não te preocupes que antes a mais do que a menos.

 

Desse lado, já leram o mais recente livro do autor? O que acharam?

Ter | 15.02.22

Burnt Sugar, Avni Doshi

Burnt Sugar (traduzido para Açúcar Queimado), de Avni Doshi, era um daqueles livros que eu sentia que ia adorar ainda antes de ler, só mesmo pelo que li na sinopse. Claro que isso nem sempre quer dizer nada, já me desiludi muito quando achava que ia amar um livro, mas fico feliz por ter seguido o meu instinto em relação a este.

 

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Sabendo que seria uma leitura complicada ao nível das emoções, decidi escolhê-lo para o livro de Fevereiro do Clube do Livra-te, que assim não era a única a sofrer — pelo que fui percebendo, as pessoas que já o terminaram partilham da sensação que tive: é duro de ler, mas vale muito a pena. Para quem não conhece, Burnt Sugar conta a história de Tara e Antara, mãe e filha com uma relação pouco explorada — uma relação condenada à distância pelas escolhas que ambas vão fazendo ao longo da vida.

 

Quando Tara começa a revelar sinais de demência, Antara sente-se na obrigação de acompanhar a mãe, quer nas consultas, quer no seu dia-a-dia. Esta proximidade forçada acaba por servir de gatilho para um desenrolar de memórias. Foi esta a parte que mais gostei na leitura: a forma como vamos percebendo que cada personagem construiu uma visão dos acontecimentos e um conjunto de memórias, sendo difícil de entender qual é, afinal, a versão mais fiel do que realmente aconteceu.

 

‘Reality is something that is co-authored’, the woman says. ‘It makes sense that you would begin to find this disturbing. When someone says that something is not what you think of it as, it can cause slight tremors in the brain, variations in brain activity, and subconscious doubts begin to emerge. Why do you think people experience spiritual awakenings? It’s because the people around us are engaged. The frenzy is a charge that’s contagious.’ ‘Are you saying my mother is contagious?’ ‘No, I’m not. Though maybe I am, in a sense. We actively make memories, you know. And we make them together. We remake memories, too, in the image of what other people remember.’ ‘The doctor says my mother has become unreliable.’ ‘We are all unreliable. The past seems to have a vigour that the present does not.

 

Senti muito esta história e a forma como é contada, já que a escrita de Avni Doshi é concisa, mas cheia de significado; ao mesmo tempo, nota-se que constrói as personagens com sarcasmo e amargura, o que só as torna ainda mais reais. Isto é tudo ainda mais impressionante quando percebemos que este é o primeiro livro dela, o que me deixa muito curiosa com próximos títulos.

 

Vamos lá saber: quem já leu este? O que acharam?

 

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O que é o Clube do Livra-te?

É o clube do livro do podcast Livra-te — calma, não precisam de acompanhar o podcast para participar nas leituras. Todos os meses, cada uma de nós escolhe um livro para ler em conjunto convosco e vocês podem optar por ler a escolha da Joana, a escolha da Rita ou ambas. Depois, podem deixar a vossa opinião no grupo do Goodreads ou no Discord. Podem juntar-se a qualquer altura, venham daí!

Sex | 11.02.22

Behind Closed Doors, B. A. Paris

Thrillers não costumam ser muito a minha praia — ou assim achava eu até ter lido Behind Closed Doors, de B. A. Paris. A recomendação veio de quem percebe mesmo do assunto, mas não vou revelar mais porque tem a ver com uma coisa que estamos a preparar para o Livra-te.

 

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Tentando também não estragar muito a vossa experiência de leitura, porque acredito que neste género de livros é melhor irmos às cegas, neste livro acompanhamos o casamento de Grace e Jack — aparentemente perfeito em tudo: na casa que têm, na forma como se conheceram, na relação que têm e na facilidade com que Jack aceitou a irmã de Grace, que tem Síndrome de Down. Mas será que é assim tudo tão perfeito?

 

We go downstairs and in the hall, he takes my coat from the cupboard and holds it open while I slip my arms into it. In the drive outside, he holds the car door for me and waits until I’m in. As he closes it behind me, I can’t help thinking it’s a shame he’s such a sadistic bastard, because he has wonderful manners.

 

Juro que tudo me começou a cheirar a esturro logo nas primeiras páginas e só foi ficando progressivamente pior. O resultado? Não conseguia parar de ler, só queria perceber onde é que isto ia dar, tudo isto enquanto ficava progressivamente mais nervosa com o que ia lendo. Isto leva-me a concluir que talvez goste mais de thrillers do que achava. Além de todo o enredo principal, também gostei muito das dinâmicas que a autora criou entre as personagens principais e as secundárias, bem como do facto de incluir uma personagem com Síndrome de Down de forma muito natural na história.

 

Posto isto: que bons thrillers me recomendam? Eu que achava que ficava cheia de medo de ler estas coisas, e afinal fico é entusiasmada. Vá-se lá perceber!

Qui | 10.02.22

Laços, Domenico Starnone

Uma vez ia no carro com o Guilherme e ele estava a ouvir o podcast The Jeselnik & Rosenthal Vanity Project, onde, no final, os dois têm uma coisa chamada “Recommendation Station” — um espaço para recomendações de tudo e mais alguma coisa, normalmente séries, filmes, música e livros. Nesse episódio específico falaram do novo livro de Domenico Starnone e, mesmo não conhecendo o autor, fiquei automaticamente intrigada.

 

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Porquê, perguntam vocês? Porque há rumores de que este autor esteja de alguma forma ligado a Elena Ferrante, diz-se que possa ser o marido dela ou, até, a verdadeira identidade da autora. Fui imediatamente procurá-lo, mas ainda não está traduzido para português e, então, decidi comprar Laços, um outro livro dele. [Uma nota sobre ler em inglês ou português, já que é uma pergunta que me fazem bastante, para mim a regra é simples: se o livro original é em línguas germânicas ou asiáticas, prefiro ler em inglês; se, pelo contrário, é em línguas latinas, prefiro a tradução para português.]

 

Laços é a história de uma família contada em três perspectivas: Vanda, a mulher, Aldo, o marido e Anna, uma das filhas do casal. Andamos sempre o passado e o presente, mas em dois momentos muito concretos da história desta família: no passado, a fase em que Aldo largou a família por se ter apaixonado por uma rapariga mais nova; no presente, o momento em que Vanda e Aldo, já velhos, chegam a casa depois de umas férias.

 

Aprendemos os dois que, para vivermos juntos, devemos dizer um ao outro muito menos do que aquilo que calamos.

 

É um livro pequeno, mas bastante intenso. Fala sobre o casamento, sobre a forma como as escolhas dos pais podem ter efeito na vida futura dos filhos, até em coisas que não pensamos que possam estar relacionadas, fala sobre memórias e sobre a maneira como modificamos as nossas lembranças do passado para nos sentirmos melhor no presente.

 

Entendo que possam achar que há aqui semelhanças com a escrita de Ferrante, mas, sendo honesta (e apesar de ter gostado muito deste) continuo a preferir os livros dela. Fico muito triste que ainda não haja outros livros de Domenico Starnone traduzidos para português, se calhar dou uma oportunidade à tradução inglesa de alguns títulos dele. Já o conheciam?