A Gorda, Isabela Figueiredo
Quando comecei a ler A Gorda, de Isabela Figueiredo, tive desde cedo a impressão de estar a deparar-me com uma espécie de O Retorno, de Dulce Maria Cardoso. O enredo tem contornos muito semelhantes, a escrita também tem um toque ou outro a fazer lembrar a Dulce, mas não me convenceu na totalidade.

Começando pelo princípio, ou seja, o enredo. Maria Luísa regressa de Moçambique antes dos pais e fica primeiro num colégio interno só de raparigas e, depois, com uma tia. Na adolescência começa a ser bombardeada por todas as questões típicas dessa altura da vida – as amizades, os namorados, a vontade de ser adulta antes de tempo. Porém, além de tudo isso, Maria Luísa também começa a perceber o impacto que o seu peso tem na maneira como se vê e como os outros a vêem.
Os capítulos do livro representam as divisões de uma casa, a casa em Almada onde Maria Luísa vive com os pais quando estes também regressam de Moçambique. Entre descrições de episódios passados nessas mesmas partes da casa, A Gorda é uma espécie de livro de memórias desta personagem, que nos vai levando entre passado e presente, com o objectivo de a conhecermos melhor.
O amor talvez seja ficarmos a rir olhando para o rosto da pessoa amada, não nos importarmos que nos chame de parvos, depois levantarmo-nos, abraçá-la e beijá-la. E mais nada.
Achei que esta forma de estruturar o livro resulta muito bem, contudo não consegui criar uma ligação com a personagem naquilo que a difere – a vergonha que tem por ser gorda, a forma como isso determina a vida dela. Ou seja: umas vezes isso está muito vívido, outras vezes quase que nem me lembrava que de facto isto é um conflito interno da Maria Luísa. Gostava que a narrativa me tivesse levado a viver um pouco mais isto na pele enquanto lia.
De qualquer das formas, foi uma boa experiência com Isabela Figueiredo – autora de quem eu nunca tinha lido nada –, pelo que recomendo que leiam se tiverem curiosidade. Quem já teve essa oportunidade, o que achou? Contem-me ali em baixo nos comentários.