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Rita da Nova

Qua | 16.06.21

Writers & Lovers, Lily King 

Alguém me explica porque é que Writers & Lovers, de Lily King, não é tão falado quanto devia? Não me lembro de ver muitas reviews por aí e surgiu-me poucas vezes como recomendação no TikTok. Depois de mo terem recomendado directamente (obrigada, Joana!) e de ter gostado tanto, entendam este post como a minha missão pessoal para espalhar a palavra sobre este livro. 

 

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Casey é uma rapariga de trinta anos e há seis que anda a escrever um livro. Enquanto tenta conjugar a escrita com o trabalho de empregada de mesa, a protagonista tem de lidar com várias coisas: a morte da mãe, as dívidas com que ficou por ir para a faculdade, os comportamentos reprováveis do pai. No meio disto tudo, há também espaço para um triângulo amoroso que dá um lado romântico (mas complicado de gerir) a todo o enredo.  

 

All problems with writing and performing come from fear. Fear of exposure, fear of weakness, fear of lack of talent, fear of looking like a fool for trying, for even thinking you could write in the first place. It's all fear. If we didn't have fear, imagine the creativity in the world. Fear holds us back every step of the way. A lot of studies say that despite all our fears in this country - death, war, guns, illness - our biggest fear is public speaking. What I am doing right now. And when people are asked to identify which kind of public speaking they are most afraid of, they check the improvisation box. So improvisation is the number-one fear in America. Forget a nuclear winter or an eight-point nine earthquake or another Hitler. It's improv. Which is funny, because aren't we just improvising all day long? Isn't our whole life just one long improvisation? What are we so scared of?

 

Sei que esta descrição pode parecer muito vaga, mas o livro toca em alguns aspectos que me falaram directamente ao coração, sobretudo a dificuldade em escrever um livro com tudo o que temos dentro de nós e, também, o dilema entre viver uma vida criativa ou ter uma profissão normal. Acho que vários de vocês se podem identificar com isto, mesmo que não aspirem necessariamente a serem autores de livros. 

 

Não pensem que foi amor à primeira página, ainda demorei um bocadinho a entrar na história – não que seja complexo, mas não acontece muita coisa durante os primeiros capítulos, o que pode demover algumas pessoas. Se decidirem dar uma hipótese a este livro mantenham-se resilientes no início, que eu prometo que a coisa fica interessante. 

 

Agora contem-me: deixei-vos com vontade de ler este Writers & Lovers? Como já se tem tornado hábito, fui pesquisar e infelizmente não está traduzido para português, mas recomendo muito a quem se sinta bem a ler em inglês.  

Ter | 15.06.21

My Sister, the Serial Killer, Oyinkan Braithwaite

Quem tem irmãos vai, certamente, compreender aquilo que estou a dizer – sabem aquela fina linha que separa o amor incondicional do ódio profundo entre irmãos? Aquela vontade de os estrangular, ao mesmo tempo que os abraçamos? My Sister, the Serial Killer, de Oyinkan Braithwaite, conseguiu capturar tão bem a essência deste tipo de relações, que me prendeu do início ao fim. 

 

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Korede é a irmã mais velha e sempre se habitou a ter que resolver os problemas de Ayoola – das coisas mais pequenas às mais graves, como o facto de a irmã se estar a tornar numa serial killer. Ir atrás das asneiras da irmã e literalmente ter de limpar o que ela deixa para trás sempre lhe saiu naturalmente, mesmo que estejamos a falar de locais do crime. Mas o que acontece quando Korede percebe que a próxima vítima da irmã poderá ser o homem por quem está apaixonada?

 

It’s because she is beautiful, you know. That’s all it is. They don’t really care about the rest of it. She gets a pass at life.

 

Não só adorei a premissa do livro como o facto de estar escrito com um humor tão sofisticado, a roçar o humor negro sem nunca perder a classe. A escrita lembrou-me bastante a de Chimamanda, mas pode ser por serem ambas nigerianas e a maneira como descrevem as relações familiares ser bastante semelhante. Ainda assim, a escrita de Oyinkan Braithwaite é um pouco mais críptica, menos descritiva e mais directa ao assunto. 

 

É mesmo um livro com que qualquer pessoa com irmãos, sobretudo irmãos mais novos, vai identificar-se. Divertido, leve, curto e bem escrito – tudo o que se quer numa leitura de Verão, embora a temática possa parecer indicar o contrário. Andei a investigar e percebi que a tradução portuguesa (A Minha Irmã é uma Serial Killer) está quase a sair, editada pela Quetzal. Se não me engano fica à venda a 17 deste mês, por isso agarrem-se bem a esta novidade!

 

Já tinham ouvido falar ou, como eu, leram a versão original? O que têm a dizer-me sobre o livro?

Sex | 11.06.21

The Loudness of Unsaid Things, Hilde Hinton

Não sei se já vos aconteceu, mas apaixonei-me pelo título deste livro e acabei por me desiludir com o conteúdo. Acho que criar bons títulos é uma das tarefas mais complicadas no que toca a escrever, por isso custa-me a acreditar que alguém tenha sido capaz de ser excelente a fazê-lo, mas incapaz de manter a mesma qualidade no resto. The Loudness of Unsaid Things, de Hilde Hinton, foi a minha leitura depois de The Song of Achilles e acredito que, também por isso, não tenha tido a capacidade de ser dos livros mais memoráveis deste ano.

 

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Ao longo das três partes deste livro vamos acompanhando duas linhas temporais, com duas protagonistas: nos anos 80 conhecemos Susie, uma pré-adolescente que tem de lidar com as doenças mentais da mãe (e respectivas consequências). Mais perto dos dias de hoje, acompanhamos Miss Kaye, que trabalha no The Institute, uma instituição que recebe doentes mentais e onde cada pessoa tem diferentes estratégias para lidar com os residentes. Passamos muito mais tempo a conhecer e acompanhar Susie – das visitas à mãe, à relação com o pai, passando pela necessidade de sair cedo de casa e mudar de cidade. Já Miss Kaye aparece muito pontualmente, não havendo tempo suficiente para criar uma ligação à personagem. 

 

Por outro lado, toda a construção da personagem de Susie me parece exagerada e pouco credível – das duas, uma: ou aquela miúda tem muita autoconsciência e um desenvolvimento mental acima da média, ou então temos ali a autora a projectar aquilo que agora sabe sobre o que é crescer numa personagem demasiado nova para ter noção de como as coisas são exactamente. Não sei se isto que disse faz muito sentido, mas tive sempre essa sensação ao longo da leitura. 

 

O que vale é que está bem escrito e foi por isso que continuei a ler. Ao início não conseguiu prender-me, depois fui entrando na narrativa, mas a certa altura já estava completamente desinteressada. Como não acreditei naquela personagem, pouco me fazia se estava a mudar-se para Sidney e se não conseguia encontrar casa. 

 

Acho que podem depreender que não recomendo particularmente este livro. Li algumas reviews que o comparavam com Eleanor Oliphant is Completely Fine, mas para mim não há como comparar – se tiverem que escolher, agarrem-se antes à Eleanor! Quem desse lado já tinha ouvido falar deste The Loudness of Unsaid Things? Segundo percebi, ainda não está traduzido para português. 

Qui | 10.06.21

The Song of Achilles, Madeline Miller

Podem fechar 2021, que eu já encontrei o meu livro do ano! Conhecendo-me, sabem que isso significa uma leitura recheada de choradeira e emoção, mas o que é que eu posso fazer? A minha lua em Peixes não aguenta livros bem escritos, emocionais e com uma pitada de tragédia. Sim, podem esperar tudo isto de The Song of Achilles, escrito por Madeline Miller. 

 

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Este livro é uma re-interpretação da história de Aquiles e da Guerra de Tróia – e é fácil de ler e compreender, mesmo para quem nunca teve interesse nestes temas ou não sabe muito sobre mitologia. A autora contextualiza toda e qualquer personagem que apareça, mostrando-nos como se encaixa não só no enredo, como no panorama geral das histórias clássicas e mitos gregos. 

 

Aqui conhecemos tudo pela perspectiva de Pátroclo, companheiro de Aquiles desde crianças. Se na Ilíada a relação amorosa entre os dois não é explícita, em The Song of Achilles a paixão dos dois é o centro da narrativa. Pátroclo é desajeitado e tímido, com um corpo pouco adaptado à guerra; Aquiles nasce com o destino traçado – será o maior guerreiro de todos os tempos. Contudo, só poderá cumprir esse destino se perder a vida na Guerra de Tróia. Caso opte por viver uma vida recatada, nunca será lembrado como um herói. 

 

I could recognize him by touch alone, by smell; I would know him blind, by the way his breaths came and his feet struck the earth. I would know him in death, at the end of the world.

 

Sabem aqueles livros em que conseguimos cheirar a desgraça a acontecer desde as primeiras páginas, o que nos faz ficar de coração nas mãos durante toda a leitura? Agora adicionem a isso o facto de eu saber perfeitamente o que ia acontecer a Aquiles e Pátroclo e têm a receita perfeita para eu não só não conseguir parar de ler, como estar constantemente a sofrer por causa disso. Não minto quando digo que este livro é “sofrência” do início ao fim, mas garanto-vos que vale muito, muito, muito a pena. Há muito tempo que não encontrava a construção de uma relação tão bem descrita, tão bonita. 

 

Este é daqueles que leva o meu selo de aprovação bem espetado na capa, por isso parem tudo o que estão a fazer e agarrem-se já a ele! Em português chama-se O Canto de Aquiles e está editado pela Bertrand. Porém, numa pesquisa rápida percebi que está esgotado em todo o lado. Precisam de mais provas de que é mesmo incrível?