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Rita da Nova

Qui | 15.04.21

Daisy Jones and The Six, Taylor Jenkins Reid

Há muito tempo que não lia um livro num formato tão diferente quanto Daisy Jones and The Six, de Taylor Jenkins Reid. O livro é todo escrito em forma de entrevista a uma banda (The Six), a Daisy Jones e a várias outras pessoas que foram acompanhando o surgimento e crescimento da banda, bem como o processo todo até Daisy se juntar a eles. É importante que saibam que é completamente ficcionado, embora a inspiração em bandas reais, sobretudo os Fleetwook Mac, seja mais do que óbvia. 

 

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Essencialmente, os The Six começam a formar-se como banda e, a certa altura, precisam de uma voz feminina para um dueto que os aproxime de um público um pouco mais pop. É então que colaboram com Daisy Jones, que na altura também estava numa fase de ascensão na sua popularidade, mas não necessariamente de sucesso da sua carreira. Depois disso, decidem experimentar criar um álbum em conjunto e, como podem calcular, nem tudo corre às mil maravilhas e as personagens vão-se todas interligando umas com as outras, criando momentos de tensão. 

 

I used to think soul mates were two of the same. I used to think I was supposed to look for somebody that was like me. I don't believe in soul mates anymore and I'm not looking for anything. But if I did believe in them, I'd believe your soul mate was somebody who had all the things you didn't, that needed all the things you had. Not somebody who's suffering from the same stuff you are. 

 

Se ao início achei que a estrutura em entrevista – com a intervenção de tantas personagens diferentes – era capaz de me confundir, foram precisas poucas páginas para estar totalmente convencida do formato. É diálogo puro, com um ritmo muito acelerado, e tem uma coisa que adoro: perspectivas por vezes muito diferentes de como as coisas efectivamente aconteceram. 

 

Por momentos acreditei que aquela banda existiu mesmo, que passou por aquelas coisas todas. A autora deu-se inclusivamente ao trabalho de criar as letras para as músicas que vai referenciando ao longo do livro, um pormenor que foi a cereja no topo do bolo no final do livro. Senti esta leitura como muito emocional, é um livro sobre relações pessoais e como essas relações podem ser afectadas quando as pessoas entram num processo criativo em conjunto. 

 

É uma viagem muito gira, recomendo muito! Entretanto vi também que vai ser adaptado a série e mal posso esperar para ouvir mesmo as músicas de Daisy Jones and The Six. Da mesma autora, tenho debaixo de olho o The Seven Husbands of Evelyn Hugo, em que quero pegar brevemente por conta de todo o hype que tenho visto no TikTok. O que é que já leram da autora?

Qua | 14.04.21

Bad Feminist, Roxane Gay

Continuamos aqui na senda dos livros-que-eu-comprei-porque-estavam-extremamente-baratos-no-Kobo? Continuamos, pois, e hoje trago-vos Bad Feminist, de Roxane Gay. Embora goste bastante de ler coisas dentro do tema, o formato de crónicas ou ensaios não é aquele que escolho com mais frequência. Apesar disso, posso dizer-vos que gostei bastante da experiência de acompanhar a autora ao longo destes textos. 

 

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Bad Feminist parte exactamente desta ideia da autora sobre si própria, de que é “má feminista” porque não cumpre os padrões que se têm instituído sobre o que é ser feminista. A cor favorita dela é o cor-de-rosa, preocupa-se com o seu aspecto físico, gosta de ouvir músicas cujas letras nem sempre colocam a mulher na melhor das posições, compete com outras mulheres porque se sente ameaçada. Roxane Gay começa por fazer estes disclaimers todos e eu acho isso extremamente honesto e corajoso. 

 

I embrace the label of bad feminist because I am human. I am messy. I’m not trying to be an example. I am not trying to be perfect. I am not trying to say I have all the answers. I am not trying to say I’m right. I am just trying—trying to support what I believe in, trying to do some good in this world, trying to make some noise with my writing while also being myself.

 

Os textos não são todos exclusivamente sobre o feminismo enquanto conceito, conseguem ser bastante práticos, divertidos e relacionáveis. Além disso, a autora dá sempre a perspectiva destes temas enquanto negra, o que enriquece bastante os ensaios e os tornam interseccionais. A política e cultura pop são algumas das áreas em que ela mostra todo o trabalho que o feminismo ainda tem de fazer. 

 

O que mais gostei neste livro, para além do humor de Roxane Gay, foi sem dúvida da noção de que todos erramos neste caminho, de que somos humanos, mas que se as nossas intenções forem boas, se quisermos mesmo mudar e compreender, então o maior passo já está dado. É um caminho em aberto, longe de estar começado, quanto menos terminado, mas é bom ter inspirações destas. Não concordo com tudo o que Gay diz, mas esse também é o lado bom de ler opiniões de outras pessoas – a forma como nos ajudam a enriquecer as nossas e, ao mesmo tempo, a fazer-nos repensar aquilo que achávamos ser o mais correcto. 

 

Recomendo muito a toda a gente, mas especialmente a todas as mulheres que alguma vez duvidaram que “feminista” fosse a palavra mais certa para se descreverem. Depois de lerem, vão perceber que sim. Alguém desse lado já leu? Se sim, o que acharam? 

Ter | 13.04.21

If On a Winter’s Night a Traveler, Italo Calvino

Lembro-me perfeitamente da primeira vez que ouvi falar de If On a Winter’s Night a Traveler, de Italo Calvino – foi numa aula da cadeira de Textualidades, que tive na faculdade. Não sei ao certo como é que a professora o descreveu, mas sei que apontei o nome num caderno nesse dia e, desde então, ficou na minha lista de livros para ler. Alguns anos depois, quando fomos a Nova Iorque, levei essa lista (que entretanto cresceu) para a Strand Book Store e saí de lá com todos os livros que encontrei, este incluído. 

 

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Claro que, depois disso, ainda demorei alguns anos a lê-lo e, finalmente, decidi fazer dele a minha leitura para o tema de Abril d’Uma Dúzia de Livros (um livro sobre livros). Sei que o adiei indefinidamente porque a premissa me parecia muito complicada e tinha receio que a escrita fosse pouco fluida, muito erudita. Estava completamente enganada: ao ler, apercebi-me de que If On a Winter’s Night a Traveler poderia ter sido escrito hoje e exactamente da mesma forma. 

 

Mais do que qualquer outra coisa, este livro é um exercício de escrita que não só é muito divertido de ler, como, acredito, deve ter sido muito divertido de criar. Há dois protagonistas, O Leitor e A Outra Leitora. Ambos se conhecem porque procuram a continuação de If On a Winter’s Night a Traveler, mas acabam por encontrar mais nove inícios de histórias completamente diferentes. 

 

In the shop window you have promptly identified the cover with the title you were looking for. Following this visual trail, you have forced your way through the shop past the thick barricade of Books You Haven't Read, which are frowning at you from the tables and shelves, trying to cow you...And thus you pass the outer girdle of ramparts, but then you are attacked by the infantry of Books That If You Had More Than One Life You Would Certainly Also Read But Unfortunately Your Days Are Numbered. With a rapid maneuver you bypass them and move into the phalanxes of the Books You Mean To Read But There Are Others You Must Read First, the Books Too Expensive Now And You'll Wait Till They're Remaindered, the Books ditto When They Come Out in Paperback, Books You Can Borrow From Somebody, Books That Everybody's Read So It's As If You Had Read Them, Too.

 

Vamos acompanhando estas duas personagens e estes capítulos iniciais de diferentes livros, de forma alternada. No fundo, é um livro sobre nove livros diferentes e, além disso, é um livro sobre a experiência de ler. Uma pequena boneca russa, com várias histórias dentro de histórias, mas que fazem sentido no final. As descrições sobre situações que todos nós (leitores) já vivemos foram a minha parte favorita. Em If On a Winter’s Night a Traveler somos, simultaneamente, a personagem principal e um observador expectante. 

 

Foi uma boa forma de inaugurar o mês do Dia Mundial do Livro, sem dúvida. Pelo menos senti que era um livro com muitos outros dentro e isso é algo com que não me cruzo muitas vezes nestas lides de leitora. Quem desse lado já leu ou ficou com vontade de ler?

Sex | 02.04.21

In Five Years, Rebecca Serle

Se eu sou a primeira pessoa a dizer que não se deve julgar um livro pela capa e, depois, sou também a primeira a fazê-lo? Às vezes acontece e pronto, é preciso admitir e seguir em frente. Já tinha visto o livro In Five Years, de Rebecca Serle, um pouco por toda esta Internet, mas achei sempre que não era para mim. Até que o Kobo me acenou com o belo preço de 99 cêntimos e eu lá decidi dar-lhe uma oportunidade. 

 

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Ainda bem que o fiz – não porque o livro tenha mudado a minha vida, longe disso, mas porque foi até uma leitura prazerosa e um excelente “limpa palato” entre outros livros mais pesados. E descobri que o julgamento que andava a fazer do livro (pensava que era um daqueles romances bem melosos e chatos) afinal estava totalmente errado. 

 

A premissa agarrou-me logo: Dannie, a nossa protagonista, mora em Manhattan com o namorado, com quem tem a vida planeada ao segundo. Se lhe perguntarem onde se vê daqui a cinco anos, ela tem um plano infalível e bem delineado – sabe onde quer trabalhar, onde quer morar e com quem quer partilhar a vida. Na noite em que fica noiva do namorado, adormece exausta no sofá e tem um sonho demasiado vívido. Passaram cinco anos e ela está em Brooklyn, num apartamento com um homem que não conhece. 

 

You mistake love. You think it has to have a future in order to matter, but it doesn't. It's the only thing that does not need to become at all. It matters only insofar as it exists. Here. Now. Love doesn't require a future. 

 

Eu sei que por esta sinopse parece que vai ser um livro apenas sobre a forma como ela depois percebe que, afinal, é esta vida de que precisa para ser feliz. Mas, acreditem, o livro tem twists de que eu não estava à espera, mostrando ser muito mais profundo (e até triste) do que eu achava. Pensei que estava a adivinhar tudo o que ia acontecer e, pelos vistos, a autora conseguiu dar-me bem a volta. Percebo que In Five Years se tenha tornado um grande sucesso ou, pelo menos, que ande a ser falado por aí. 

 

Vejam bem que até me puxou à lagriminha no final (pessoas que menstruam e estão a ler isto: não é um bom livro para ler no pico da TPM, está bem?). Em resumo: não é um livro perfeito, mas revelou-se uma bela surpresa e eu gostei de ter estado errada na opinião que tinha sobre ele – e tudo pela capa. Quem desse lado já o leu? O que acharam?