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Rita da Nova

Qua | 02.12.20

Ensaio sobre a Cegueira, José Saramago

Minha nossa. Sim, só agora cheguei ao Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago e fiquei completamente de rastos. O Intermitências da Morte é um dos meus livros favoritos de sempre, mas não sei se não gostei ainda mais deste. Gosto de dizer que Saramago é mestre das premissas com base na pergunta “e se?”; para mim são as que dão as melhores histórias e este livro não é excepção.

 

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Ensaio sobre a Cegueira propõe o seguinte cenário: e se, de repente, as pessoas começassem a cegar e a passar essa cegueira umas às outras? Como reagiríamos em relação a esses cegos e como nos comportaríamos se todos ficássemos sem ver? De certa forma, acho que podemos analisar esta narrativa em dois planos - por um lado, o da epidemia da cegueira e a forma como as pessoas lidam com isso e, por outro, o da cegueira como algo que transcende a cegueira física, sendo mais uma cegueira colectiva da humanidade.

 

Começando pelo primeiro, foi difícil para mim não associar a epidemia do livro com a pandemia que estamos a viver actualmente - dei por mim a pensar qual delas preferia que estivesse a acontecer (a resposta é COVID-19, sempre). As comparações são inevitáveis e é muito interessante ler este livro no contexto actual (mesmo que já tenham lido, recomendo muito uma releitura).

 

Por outro lado, Saramago nunca foge a uma análise mais profunda sobre a forma como nos comportamos em sociedade, sendo que aqui a pergunta é: quem é mais cego? Quem não possui capacidade de visão ou quem vê apenas o que quer ver?

 

Se eu voltar a ter olhos, olharei verdadeiramente os olhos dos outros, como se estivesse a ver-lhes a alma, A alma, perguntou o velho da venda preta, Ou o espírito, o nome pouco importa, foi então que, surpreendentemente, se tivermos em conta que se trata de pessoa que não passou por estudos adiantados, a rapariga dos óculos escuros disse, Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos.

 

Como vos disse inicialmente, não sei se este não passou a ser o meu livro favorito do autor e acho que é daqueles que toda a gente deveria ler pelo menos uma vez na vida. Se têm receio da escrita à Saramago, garanto-vos aqui que este até é dos mais fáceis de seguir e, provavelmente, dos que li, aquele que nos deixa mais presos ao enredo e com vontade de saber o que vai acontecer a seguir.

 

Contem-me lá: a quem falta ler este? Quem já leu, o que achou?