Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Rita da Nova

Qua | 28.11.12

Berna, uma casa de bonecas em ponto grande

 

 

 

Berna. A minha passagem pela capital suiça foi realmente veloz. Uma "visita de médico", como se costuma dizer. Ainda assim, o tempo que lá estive foi suficiente para me dar a sensação de ter entrado, como que por magia, numa casa de bonecas em escala gigante. Berna é uma cidade pequena mas é perfeitamente habitável e é isso que a torna tão aprazível de conhecer. Não são precisas mais do que duas horas para ter percorrido todas as suas ruas, mas há um encanto especial em cada uma delas que nos faz querer calcorreá-las de novo.

 

É como se a cada esquina nos cruzássemos com personagens que só conhecemos das histórias fantásticas e quiséssemos ter a certeza de que estavam mesmo lá. O que surpreende em Berna é que essa essência nunca desaparece. Eu diria até que se multiplica. Talvez seja a arquitectura - tão tipicamente alpina e tão amorosa -, ou talvez seja apenas a neblina muito suave que paira por cima da cidade. Talvez seja o rio, que com o seu azul límpido consegue romper com a festa verde das árvores e dar-lhe um ar ainda mais agradável. Talvez sejam as pessoas. Ou talvez, só talvez, seja isto tudo e mais alguma coisa não de pronunciável.

 

Há coisas constantes na Suiça e Berna não é excepção. Falo das horas. Da pontualidade. Aqui tudo anda no compasso dos relógios e, mais do que isso, tudo parece regido por um relógio invisível que toca silenciosamente e dá um ritmo próprio à cidade.

A verdade é que não é preciso visitar um parque da Disney para sentir na pele um mundo encantado. Passear pelas ruas de Berna, observar as suas pequenas casas e a forma como estão decoradas por fora é mais do que suficiente. Afinal, que outra cidade teria ursos verdadeiros como homenagem ao seu próprio nome e tomaria conta deles como se fossem pessoas?

 

 

 
 
É engraçado ver como, mesmo que as horas e a pontualidade sejam valores importantes, Berna é tão descontraída e parece criar uma temporalidade só sua.
 
 
 
Lá porque uma cidade é clara, não significa que não possa brincar com as sombras quando lhe apetece.
 
 
 
Ursos, ogres, fadas... são figuras tão naturais em Berna que nos fazem sentir como se fossemos nós os seres estranhos.
 
 
 
 

Olhar para os pontos mais altos desta cidade é ter quase a certeza que iremos ver um relógio e situar-nos no tempo.

 

Seg | 26.11.12

Auschwitz, um turbilhão de sentimentos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Auschwitz. Não me parece que alguma vez a minha escrita (enquanto reflexo de mim mesma) esteja suficientemente madura para escrever sobre este sítio e, muito menos, para conseguir transmitir o que senti quando o visitei. Aliás, não creio que alguém que não tenha vivido o Holocausto na pele consiga pôr em palavras a verdadeira essência de um acontecimento de tais proporções.

Posso dizer-vos muito poucas coisas que façam sentido porque - e quem já esteve em Auschwitz ou noutro campo de concentração sabe - toda a visita foi acompanhada por uma confusão atroz de sentimentos. Sempre que me recordo das horas que lá passei não me é possível ordenar completa e cronologicamente a sucessão de acontecimentos, tal é a preponderância de sensações contraditórias.

Primeiro que tudo, há a surpresa e a incredulidade. Estamos ali, num local onde foram cometidas atrocidades e, pura e simplesmente, não acreditamos que tudo isso tenha sido possível. Negamos, sentimo-nos como num museu onde nada é real e tudo são recriações. Depois ouvimos relatos, vemos fotografias e objectos. E é aí que a realidade nos cai abrupta e silenciosamente em cima. E dói-nos, dói-nos como se tivesse sido connosco. Apesar disso, sabemos que não foi e esperemos que nunca nos aconteça um terço disso. E é nesse momento, passada a surpresa, a negação e a tristeza, que nos sentimos aliviados.

No fim, fica uma dor de cabeça incrível e passam-nos milhares de pensamentos pela mente. Ir a Auschwitz foi, pelo menos para mim, um momento de ponderação. Foi um convite forçado para pensar muito e colocar grande parte da minha vida em perspectiva. Toda a gente perde qualquer átomo de inocência que ainda tenha, no momento em que entra num sítio assim. É o preço a pagar quando nos confrontamos com o que de pior o ser humano é capaz.

Desta vez deixo-vos apenas as fotografias, sem legenda.

 

 

 
 
 
 
 
 
 
  
Seg | 19.11.12

As mil e uma ruas de Sarajevo

sarajevo

 

Sarajevo. «Ai filha, onde é que tu te vais meter? Isso não é nada seguro», diziam-me os que mais se preocupam comigo e, acima de tudo, aqueles que ainda se lembram da guerra da Bósnia. É a própria cidade que faz questão de nos lembrar daquilo por que passou, mesmo que de forma muito subtil. Sarajevo é como uma mulher curvilínea, que anda de uma maneira muito sua, fazendo com que nos percamos no seu jogo de cintura.

O mais impressionante em Sarajevo é o confronto constante com o seu passado recente. À medida que caminhamos quase que tropeçamos, literalmente, em cemitérios espalhados pela cidade. As campas estão em todo o lado: entre as casas ou no meio de um parque. Basta pouco tempo e uma observação rápida para perceber que marcam o lugar onde estão sepultadas pessoas novas, demasiado novas. Assim que se sobe a um ponto alto da cidade, a vista corta a respiração. Somos obrigados a pensar no que se passou e a pôr as nossas próprias vidas em perspectiva, nem que por breves instantes.

A sensação de passear nas mil e uma ruas de Sarajevo foi uma agradável surpresa. A parte mais antiga transporta-nos para outra ponta do mundo, um sítio qualquer onde as mulheres andem maioritariamente tapadas e tenham que se cobrir para entrar numa mesquita. Podemos demorar-nos num Bazar que - ainda que não seja nada do que foi - nos remete para uma história que não é a nossa mas à qual adorariamos pertencer. Acima de tudo, já não há perigo: é possível estar num café ou num banco de jardim sem sentir qualquer medo. É como uma fénix que começa a renascer das cinzas.

 

 
 
Sarajevo é como uma Turquia em miniatura que espreita no meio da Europa.
 
 
 
Se há um grande responsável pela etnicidade da cidade, é o Bazar.
 
 
 
Há nesta cidade um aviso constante: um aviso contra as maiores atrocidades cometidas pelo ser humano. Um aviso para nós e sobre nós mesmos.
 
 
Sex | 16.11.12

Budapeste, uma jóia atravessada pelo Danúbio

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Budapeste. Era uma paragem incontornável nesta viagem, acima de tudo porque fazia parte de uma lista de cidades "a visitar com urgência". A primeira coisa que posso dizer é que impossível que alguém fique desiludido com Budapeste. Por mais coisas boas que se oiça ou por mais fotografias bonitas que se veja, a cidade tem o dom de maravilhar um bocadinho mais a cada minuto que passa. Não é um encanto que vem das pessoas que lá moram, até porque Budapeste já é muito turística e não achei que os húngaros fossem um povo especial. É qualquer coisa que está nas ruas, no ar e nos edifícios. A vida de Budapeste está-lhe cravada nas pontes e flui com o curso do Danúbio.

 

O melhor que há a fazer nesta cidade é, efectivamente, passear nas margens do rio. Por mais vezes que por lá se passe, a paisagem vai parecer sempre ligeiramente diferente e ligeiramente mais bonita. Pouco a pouco e muito devagarinho. Até que, no final, estamos irremediavelmente presos nela.

 

Budapeste era, na verdade, três cidades diversas. Eu diria que estão melhores juntas que separadas. A diversidade entre zonas existe - está claramente lá - mas elas fundem-se tão bem umas nas outras que a origem parece ser a mesma.

 

 

Há outra coisa nesta cidade que ainda não encontrei em mais lado nenhum: a Budapeste de dia e a Budapeste de noite são a mesma face de moedas diferentes. A paisagem é a mesma, mas parecemos transportados para um local totalmente novo à medida que o sol se põe ou quer nascer. E por mais que se tente capturar esta essência, parece que ela nos foge por entre os dedos ou que teima em desaparecer das fotografias que tiramos. A única forma de gostar de Budapeste na sua totalidade é indo lá. O que eu duvido é que haja uma forma de inverter o processo.

 

 
As cores de Budapeste têm o poder de encaixar umas nas outras com uma das maiores harmonias que eu já presenciei.
 
 
 
 
À noite, a cidade parece entrar num jogo de luzes interminável.
 
 
 
Há sempre qualquer coisa de inesperadamente bonito em Budapeste, mesmo em dias mais cinzentos.
 
 

Pág. 1/2