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Rita da Nova

Tenho de Escrever? // Pozinhos de procrastinação

O registo deste post é um bocadinho diferente daquele a que estão habituados. Isto porque a Catarina Duarte, do blog Insensatez, me lançou o desafio de responder à pergunta: Tenho de escrever? Depois de andar uns dias a pensar nesta questão, concluí que dificilmente conseguiria dar uma resposta que não fosse um redondo "sim" - sem grandes explicações ou dissertações. Mas, depois, lembrei-me de um pequenino conto que escrevi há uns tempos e é a melhor resposta que poderia dar a esta questão.

 

É esse texto que vos trago hoje.

 

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Até então, até àquele preciso momento, era um dia perfeitamente normal. Estava no sítio do costume: sentada no chão, costas encostadas ao sofá, agarrada a um livro.

 

Aquele preciso momento foi o exacto segundo em que virei a última página. Ali estavam eles: dois olhos muito grandes e redondos a olhar para mim. Assustei-me e quase deixei cair o livro, o que teria sido um azar. Toda a gente sabe que os livros sentem as maldades que lhes fazemos, como dobrar-lhes as páginas, atirá-los ao chão ou deixá-los a ganhar morte nas prateleiras.

 

Olá, disse-me, com uma voz demasiado amigável para quem me tinha deixado à beira de um ataque de coração. Podes abanar a folha para me ajudar a sair, por favor? Assim fiz.

 

Espreguiçou-se e ouvi-lhe estalar os frágeis ossos. Não era maior do que uma esferográfica. Os olhos tinham-me parecido enormes à conta daqueles óculos de armação negra que lhe ocupavam a cara toda.

 

Obrigada! Estava aqui toda espalmada entre as palavras; sabe bem sair um bocadinho dos livros de vez em quando, esticar as costas, apanhar ar… tu sabes.

A pergunta saiu-me debaixo da língua, a medo. Quem és tu?

Sou a tua fada madrinha.

A minha fada madrinha? Mas as fadas madrinhas só existem nos livros!

Precisamente. Sorriu. Trago-te uma missão. Ouve bem, porque é importante. Tu, minha querida, foste escolhida para contar uma história.

Precipitei-me. Esta era canja.

Era uma vez…

Não, não, disse-me, muito calma. Isso assim é demasiado fácil e ambas sabemos que não gostas que te sirvam as coisas numa bandeja. Tens de contar uma história num livro. Mas há regras: não pode ter imagens, só palavras, como aqueles livros estranhos que a tua mãe lê na cama aos domingos de manhã. E tem de ter centenas de páginas.

 

Levantou-se, pronta para voltar às letras de onde tinha aparecido. Oh, disparate. Ia-me esquecendo. Soprou-me uns pós brilhantes para o nariz.

O que é isto?, perguntei-lhe, a meio de um espirro.

Chamam-se pozinhos de procrastinação.

Proscrasquê?

Procrastinação. Vão acompanhar-te nesta missão e garantir que escreves um livro sim, mas nunca antes do tempo.

 

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E vocês, também sentem que têm mesmo de escrever? Qual é o papel que a escrita tem nas vossas vidas? Contem-me tudo ali em baixo nos comentários.

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