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Rita da Nova

As minhas pessoas // Pai

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Passam-se meses em que eu não estou com o meu Pai, apesar de agora até morarmos no mesmo bairro. Sempre foi um bocadinho assim entre nós: podemos nem falar, mas estamos lá um para o outro. A nossa relação é de confiança velada, algo que construímos sem esforço e sempre nos foi natural.

 

Só conheci o meu Pai quando fiz 9 anos - ele entrou pela porta de casa da minha Avó e sentou-se no sofá. Sem desviar os olhos da televisão (estava a dar o Doraemon, era sagrado), soube imediatamente quem era e perdoei tudo o que, na altura, achei que havia para perdoar. Ele levou-me a jantar fora e eu não larguei a mão da minha Avó durante um segundo, para lhe mostrar que precisava de me habituar à presença dele. Lembro-me como se estivesse a acontecer agora: comi frango assado e ele comeu salmão grelhado com molho de manteiga, na sala de trás da Churrasqueira do Marquês, na Calçada da Ajuda. Nunca tinha comido salmão - nem quis provar do dele -, mas hoje em dia é um dos muitos gostos que partilhamos.

 

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Vim a aperceber-me mais tarde que não havia nada para desculpar, nada para esquecer, nenhuns ressentimentos ou coisa que o valha. Tive uma oportunidade que pouca gente teve: a de construir uma relação de zero com o meu pai, mesmo quando toda a gente achava que seria difícil.

 

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Sabem quando as crianças aprendem a andar de bicicleta e têm aquelas rodinhas de apoio? Passado um tempo já só têm uma das rodinhas e, finalmente, ficam sem nenhuma e conseguem andar em perfeito equilíbrio. É assim que vejo o meu Pai. Como as rodinhas da minha bicicleta, um apoio que, apesar de não ser tão explícito, continua a existir e me permite continuar no caminho que percorro.

 

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Este é o terceiro post sobre as minhas pessoas: aquelas que fizeram e fazem de mim quem sou. As que ensinam - às vezes sem saberem - como andar neste sítio caótico que é o mundo. Espero que gostem tanto de as conhecer como eu gosto de as ter na minha vida.

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