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Rita da Nova

As minhas pessoas // Avó

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A minha Avó tem mais 50 anos que eu, mas foi ela quem me ensinou tudo sobre ser-se mulher. Falou-me de tudo o que faz uma mulher, mas sempre com o sentido prático e desprendido que normalmente associamos aos homens. Para ela nunca nada é suficientemente grave ou definitivo - “só a morte, talvez” e mesmo assim ela tem dúvidas quanto a isso. Nada é um drama, tudo se resolve. Acho que esta foi a maior lição que ela me ensinou e que - perdoem-me os homens - é muito mais importante para nós, mulheres.

 

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Porque espera-se de nós que sejamos sensíveis, que choremos naquela semana do mês, que nos derretamos com fotografias de bebés e de cachorrinhos. Mas também nos querem lutadoras, sofredoras silenciosas, mães guerreiras e o diabo-a-sete. Sem o dizer, a minha Avó sempre me passou uma mensagem muito clara: faz o que tens a fazer, reage como achares que deves, arca com as consequências, aprende com elas e manda o resto à merda.

 

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A minha Avó nunca me indicou um caminho, mas desde pequena que me orienta os passos. Nunca me disse que devia ser boa aluna, que devia por-me mais bonita ou que devia sair mais. Sempre me deixou escolher o que queria ser e fazer, dando-me tudo o que precisava para dar o melhor de mim em tudo. E, por vezes, só um bocadinho de colo bastava (e basta). E o colo dela é o lugar das minhas memórias, como já lhe escrevi:

 

Foi lá que repousei pela primeira vez. Ainda não tinha memórias e já estava destinado a ser o meu lugar. Não me lembro, afinal tinha apenas poucas horas de existência, mas já me contaste várias vezes como foi.

Ninguém conseguia acalmar-me e tu entraste. Pegaste em mim e usas uma expressão que adoro para explicar o que aconteceu a seguir. "Alapaste-te no meu peito", dizes. E bates de mão aberta no sítio exacto em que pousei a cabeça, quando o dizes. E eu, embora saiba que é impossível, quase consigo lembrar-me.  

O teu colo é o meu lugar. O lugar das minhas memórias, das minhas alegrias, das minhas tristezas e dos meus desabafos. Posso correr o mundo, mas precisarei sempre de aterrar no teu peito, aliás!, precisarei sempre de me alapar no teu peito para me sentir em casa. É lá que o meu choro é mais verdadeiro. É lá que o conforto é mais puro. É lá que sou mais eu.

Foi lá que repousei pela primeira vez e é lá que quero repousar toda a minha vida.

Obrigada, Avó. 

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Este é o primeiro post sobre as minhas pessoas: aquelas que fizeram e fazem de mim quem sou. As que ensinam - às vezes sem saberem - como andar neste sítio caótico que é o mundo. Espero que gostem tanto de as conhecer como eu gosto de as ter na minha vida.

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